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14 de out. de 2026
A pauta que saiu pela tangente
Manifestação a favor de Lula na Paulista ganhou atenção por boatos sobre a orientação sexual de Israel Augusto, desviando o debate das propostas políticas.
Por Dra. Graça Mota Figueiredo
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Foto: Graça Mota
Na Avenida Paulista, uma manifestação em apoio a Lula ocorrida hoje (11 de outubro de 2026) ganhou um protagonista inesperado: Israel Augusto.
Em poucas horas, parte da conversa deixou a política — que, convenhamos, costuma exigir mais de um neurônio e algumas informações — e foi parar na curiosidade sobre a vida amorosa do rapaz.
Nas redes, surgiu a afirmação de que ele seria gay; confirmação, porém, não apareceu. A internet, como se sabe, não costuma esperar a certeza: trabalha com a velocidade do foguete e a precisão do “me disseram”.
Também houve quem lamentasse, em tom de brincadeira, que ele talvez não estivesse disponível para o flerte feminino.
É o humor brasileiro em seu habitat natural: pega um ato político, encontra um personagem, inventa um romance possível e, antes que alguém termine de explicar a proposta do evento, já está discutindo quem teria chance com quem. Mas a orientação sexual de alguém não é informação pública só porque virou assunto — e boato não vira verdade por receber muitas curtidas.
Esse desvio de rota é quase uma arte nacional. No meio de uma discussão sobre inflação, aparece o meme do gato; durante um debate eleitoral, alguém pergunta pelo corte de cabelo do candidato; no grupo da família, uma notícia importante perde espaço para a briga sobre o VAR ou para a foto suspeita de um famoso. Às vezes, rir é uma forma de respirar diante de temas pesados. Às vezes, é também um jeito eficiente de não falar deles.
O problema não é a piada, nem a irreverência — que fazem parte do repertório brasileiro e, muitas vezes, ajudam a furar a pompa dos poderosos. O problema é quando a graça vira cortina: a conversa sobre propostas desaparece, a especulação toma o lugar do fato e a pessoa vira personagem de uma história que talvez nem seja verdadeira.
A democracia permite opiniões, sátiras e manifestações — inclusive as que nos irritam ou parecem absurdas.
Essa liberdade não é detalhe decorativo: é parte do que impede que uma só voz decida o que pode ser dito.
Por isso, vale rir, discordar e até fazer piada; mas também vale desconfiar de quem promete acabar com a liberdade alheia para proteger a própria versão dos fatos.
Porque, quando a democracia se perde, até a piada precisa pedir autorização.
E nós, os mais velhos, nos lembramos muito, muito bem do sabor amargo do autoritarismo.
Que ele nunca mais volte!
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