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2 de mai. de 2026
À SOMBRA DAS PARREIRAS
Lembranças da avó e da mãe trazem conforto e força em momentos de depressão.
Por Misa Ferreira
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Foto: Misa Ferreira
Quando estou meio ou muito macambúzia, ameaçada e aguilhoada pelo espinho da depressão, quando sou acometida por um sentimento de que tudo foi em vão, busco curar-me. Assim como o corpo que adoece, luta e lança mão de suas próprias reservas para se recompor, meu espírito também recorre aos seus meios para se curar. Busco as lembranças que me reconfortam e me fortalecem.
Vêm à minha memória a lembrança de minha avó materna estendendo lençóis branquinhos num chão de relva verdíssima em seu quintal que para mim era o próprio jardim de Versalhes, com flores simples que ela própria cultivava. Nada era comprado porque nada se podia comprar nem ela quereria, mas era lindo porque antúrios se distribuíam pelos cantos dos muros e as margaridas se alternavam brincando aqui e ali, havia também uma flor cor de rosa, talvez fosse de uma espirradeira. Tudo era harmonioso junto com sua presença inesquecível. Era alta, magra, sempre de saia preta, avental e blusa branca. Van Gogh se deliciaria com este cenário para suas pinturas. Ela estendia os lençóis cuidadosamente, com gestos lentos de quem sabia que na vida não adianta a pressa, tudo tem sua hora. Era a própria imagem da simplicidade, sempre a simplicidade que faz falta a mim e que sempre me escapa.
Minha mãe, tal qual minha avó era a guardiã das plantas e flores. Nosso quintal também parecia um lindo bosque com costelas de Adão e milhares de antúrios. Havia uma espécie que era sua preferida, a parreira. Em todas as casas que moramos, ela tratava de providenciar uma parreira, que generosamente produzia uvas, não saborosas, é claro, mas não era isso que encantava minha mãe. Ela era apaixonada pela sombra que as parreiras proporcionavam. Dizia que nenhuma sombra era mais fresca do que a sombra da parreira.
Para curar meu espírito resgato essas simplicidades e cultivo a verdade de que as coisas grandiosas são as mais simples, a água, o vento, as montanhas, os mares profundos, o murmúrio do mar, os regatos rasos e cristalinos, os ninhos que se alojam nos beirais dos telhados, as flores e suas cores, enfim, riquezas que não têm preço e que tornam nossa vida mais rica.
Tanto minha avó como minha mãe, depois da lida diária, recostavam-se em suas camas e saboreavam o livro Liturgia das horas e meditavam sobre a brevidade da vida. Naquela época e naqueles meus pequenos momentos a vida era simples e era bela.
Por Misa Ferreira
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