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4 de jul. de 2026
A TRISTEZA DE UM ATEU
Crônica de Arnaldo Jabor sobre o Papa João Paulo II, revelando mudança de perspectiva após sua morte.
Por Prof. Paulo Roberto Labegalini
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Foto: Conexão Itajubá
Arnaldo Jabor, um dia escreveu uma crônica no jornal ‘Folha de São Paulo’, intitulada: ‘Eu não gostava do Papa João Paulo II’. Eis algumas partes do texto:
“Escrevo enquanto vejo a morte do Papa na TV. E me espanto com a imensa emoção mundial. Percebi que tinha de saber mais sobre mim, eu, sozinho, sem fé alguma, no meio desse oceano de pessoas rezando no Ocidente e Oriente. Meu pai, engenheiro e militar, me passou dois ensinamentos: ele era ateu e torcia pelo América Futebol Clube. Claro que segui seus passos. Fui América até os 12 anos, quando virei casaca para o Flamengo e parei de acreditar em Deus.
Sei que não se fala mal de morto, mas devo confessar que nunca gostei desse Papa. Por quê? Não sei. É que sempre achei, nos meus traumas juvenis, que Papa era uma coisa meio inútil, pois só dava opiniões genéricas sobre a insânia do mundo, condenando a maldade e pedindo uma paz impossível, no meio da sujeira política.
Quando ele começou a beijar o chão dos países visitados, impliquei mais ainda. Que demagogia! Reinando na corte do Vaticano e bancando o humilde... Um dia, o Papa foi alvejado no meio da Praça de São Pedro por aquele maluco islâmico, prenúncio dos tempos atuais. Eu tenho a teoria de que aquele tiro, aquela bala terrorista despertou-o para a realidade do mundo. E o Papa sentiu no corpo a desgraça política do tempo. Acho que a bala mudou o Papa.
Mas fiquei irritadíssimo quando ele foi à prisão perdoar o cara que quis matá-lo. Não gostei de sua infinita bondade com um canalha boçal. Achei falso seu perdão que, na verdade, humilhava o terrorista babaca, como uma vingança doce.
E fui por aí, observando esse Papa sem muita atenção. É tão fácil desprezar alguém, ideologicamente... Quando vi que ele era ‘reacionário’ em questões como camisinha, pílula, e contra os arroubos da Igreja da Libertação, aí não pensei mais nele. Tive apenas uma admiração passageira por sua adesão ao ‘Solidariedade’ do Walesa, mas, como bom materialista, desvalorizei o movimento polonês como idealista. E o tempo passou...
O mundo foi piorando e o Papa viajando, beijando pés, cantando com Roberto Carlos no Rio. Uma vez, ele declarou: ‘A Igreja Católica não é uma democracia’. Fiquei horrorizado naquela época liberalizante e não liguei mais para o Papa de direita.
Depois, ficou doente. E eu olhava cruelmente seus tremores, sua corcova crescente e, sem compaixão alguma, pensava que o Pontífice não queria ‘largar o osso’, e ria como um anticristo.
Até que, nos últimos dias, João Paulo II chegou à janela do Vaticano, tentou falar... E num esgar dolorido, trágico, foi fotografado em close, com a boca aberta, desesperado. Essa foto é um marco, um símbolo forte, quase como as torres caindo em NY. Parece um prenúncio do Juízo final, um rosto do Apocalipse, a cara de nossa época. É aterrorizante ver o desespero do homem de Deus, do infalível, do embaixador de Cristo.
Naquele momento, Deus virou homem. E, subitamente, entendi alguma coisa maior que sempre me escapara: aquele rosto retorcido era o choro de uma criança, um rosto infantil em prantos! O Papa tinha voltado a seu nascimento e sua vida se fechava. Ali estava o menino pobre, ex-ator, ex-operário, ali estavam as vítimas da guerra, os atacados pelo terror, ali estava sua imensa solidão igual à nossa. Então, ele morreu.
E ontem, vendo os milhões chorando pelo mundo, entendi de repente sua obra, sua imensa importância. Vendo a cobertura da Globo, montando sua vida inteira, seus milhões de quilômetros viajados, da África às favelas do Nordeste, entendi o Papa. Emocionado, senti minha intensíssima solidão de ateu. Eu estava fora daquelas multidões imensas, eu não tinha nem a velha ideologia esfacelada, nem uma religião para crer, eu era um filho abandonado do racionalismo francês, eu era um órfão de pai e mãe.
Aí, quem tremeu fui eu, com olhos cheios d’água. E vi que Karol Wojtyla, tachado superficialmente de conservador, tinha sido muito mais que isso. Ele tinha batido em dois cravos: satisfez a reacionaríssima Cúria Romana implacável e cortesã e, além disso, botou o pé no mundo, fazendo o que italiano algum faria: rezar missa para negões na África e no Nordeste, levando seu corpo vivo como símbolo de uma espiritualidade perdida.
Visitou o Chile de Pinochet e o Iraque de Saddam e, ao contrário de ser uma ‘adesão alienada’, foi uma crítica muito mais alta, mostrando-se acima de sórdidas políticas seculares, levando consigo o Espírito, a ideia de transcendência acima do mercantilismo e ditaduras. E foi tão moderno que usou a mídia sim, muito bem, como Madonna ou Pelé.
Sou ateu, sozinho, condenado a não ter fé, mas vi que se há alguma coisa de que precisamos hoje é de uma nova ética, de um pensamento transcendental, de uma espiritualidade perdida. João Paulo, na verdade, deu um show de bola!”
Livros do autor:
1. Um professor exigente e religioso – Editora Quero Saber ß NOVO! – 2026
2. Gotas de Espiritualidade – Editora Bookba (à venda na Amazon, Americanas, Shoptime, Magalu...) – mensagens diárias de fé e esperança, com os santos de cada dia.
3. Pegadas na Areia – Editora Prismas / Editora Appris
4. Histórias Infantis Educativas – Editora Cléofas
5. Histórias Cristãs – Editora Raboni
6. O Mendigo e o Padeiro – Editora Paco
7. A Arte de Aprender Bem – Editora Paco
8. Minha Vida de Milagres – Editora Santuário
9. Administração do Tempo – Editora Ideias e Letras
10. Mensagens que Agradam o Coração – Editora Vozes
11. Projetos Mecânicos das Linhas Aéreas de Transmissão (coautor) – Editora Edgard Blücher
12. Mecânica Geral – Estática (coautor) – Editora Interciência
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