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28 de mar. de 2026
As palavras de Célia Xakriabá no evento realizado pelo IRN/UNIFEI em 27 de março de 2026
Por Michelle Reboita
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Foto: Conexão Itajubá
A deputada federal Célia Xakriabá, natural da comunidade indígena Xakriabá, no norte de Minas Gerais, tem promovido diálogos com a população sobre o tema “Natureza como Sujeito de Direitos”. Em parceria com sua assessoria, os projetos Amigos do Clima e PodCast Saberes e Prosa, do Instituto de Recursos Naturais (IRN) da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), juntamente com os projetos Ebulição Cultural, Universidade Cultural e Mobilização, organizaram um evento para a recepção da deputada nas instalações da UNIFEI, realizado no dia 27 de março de 2026, das 18 às 20h30 (Figura 1).
A deputada federal Célia Xakriabá, natural da comunidade indígena Xakriabá, no norte de Minas Gerais, tem promovido diálogos com a população sobre o tema “Natureza como Sujeito de Direitos”. Em parceria com sua assessoria, os projetos Amigos do Clima e PodCast Saberes e Prosa, do Instituto de Recursos Naturais (IRN) da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), juntamente com os projetos Ebulição Cultural, Universidade Cultural e Mobilização, organizaram um evento para a recepção da deputada nas instalações da UNIFEI, realizado no dia 27 de março de 2026, das 18 às 20h30 (Figura 1).
A deputada federal Célia Xakriabá, natural da comunidade indígena Xakriabá, no norte de Minas Gerais, tem promovido diálogos com a população sobre o tema “Natureza como Sujeito de Direitos”. Em parceria com sua assessoria, os projetos Amigos do Clima e PodCast Saberes e Prosa, do Instituto de Recursos Naturais (IRN) da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), juntamente com os projetos Ebulição Cultural, Universidade Cultural e Mobilização, organizaram um evento para a recepção da deputada nas instalações da UNIFEI, realizado no dia 27 de março de 2026, das 18 às 20h30 (Figura 1).

Figura 1 Auditório do CEQUAM com os participantes do evento.
O evento contou com a participação de discentes, docentes e servidores técnico-administrativos da universidade, bem como do radialista Octávio Scofano, da enfermeira Jacqueline Cantuaria e de outros membros da comunidade. A professora Daniela Riondet-Costa, coordenadora do projeto PodCast Saberes e Prosa, atuou como mestre de cerimônias, enquanto a professora Michelle Reboita, coordenadora do projeto Amigos do Clima e do programa Conexão Ambiente, proferiu uma palestra apresentando a problemática das mudanças climáticas e sugerindo formas de convivência com esse desafio (Figuras 2 e 3). Na sequência, a deputada Célia discorreu sobre o tema “Natureza como Sujeito de Direitos”, enfocando diferentes aspectos. Antes de apresentar algumas sínteses da sua fala é importante definir o que é “Natureza como Sujeito de Direitos”.

Figura 2 Da esquerda para a direita: professora Daniela Riondet-Costa, deputada Célia e professora Michelle Reboita.

Figura 3 Professora Michelle Reboita proferindo a palestra: Ações para conviver com as mudanças climáticas.
O conceito de “Natureza como Sujeito de Direitos” refere-se ao reconhecimento jurídico de que ecossistemas possuem valor intrínseco e direitos fundamentais de existir, persistir e regenerar seus ciclos vitais, superando a visão antropocêntrica (natureza como objeto de exploração pelo homem) e permitindo sua representação legal (Cullinan, 2011; Gudynas, 2011; Constituição do Equador, 2008; Boyd, 2017).
Parte da discussão da deputada (Figura 4) levantou a questão de que o "progresso" muitas vezes tenta desvalorizar o que é essencial para vender o que é artificial. Nos ensinam a olhar para fora e para longe para buscar valor, enquanto o que temos sob os pés é o que o mundo agora corre desesperado para recuperar. Em uma das duas falas, a deputada destacou como é desvalorizado o conhecimento dos povos indígenas e citou o caso de um sobrinho. Seu sobrinho disse que numa visita a Goiás, um menino falou que a escola dele era fraca, pois ainda não teria aprendido a raiz quadrada. A deputada disse a seu sobrinho para perguntar ao menino se ele sabia a velocidade da física na flecha, a geometria das pinturas corporais dos índios; aí seis meses depois, o sobrinho respondeu a Célia que o menino não sabia. Então, Célia disse ao sobrinho para responder ao menino que a escola que ele frequentava também era fraca. Hoje a coisa mais chique que qualquer pessoa quer ter é um momento com sua família na natureza, como numa cachoeira. Isso era visto como coisa de pobre, hoje é luxo.

Figura 4 Deputada Célia Xakriabá proferindo seu discurso.
Em outra parte de sua fala, fica evidente que a política tradicional, cega pelo concreto e pelos números do PIB, insiste em não ver que: a crise climática tem corpo, tem gênero e tem endereço. As mulheres e crianças são as mais afetadas. Ela apresentou resultados de um estudo que mostra que o aumento de um grau na temperatura eleva em 5% a violência contra meninas e mulheres. É preciso destacar isso na política pública. Exemplificou o caso das mulheres e meninas abusadas por garimpeiros em troca de comida. Também adicionou o caso das mulheres em Mariana, que sofreram com o rompimento da barragem; há estudos que indicam que elas sofreram com o abandono afetivo. Hoje o barulho das máquinas e o medo constante da sirene de rompimento (a "ameaça iminente") em Mariana criam uma geração em estado de alerta perpétuo. Isso é tortura psicológica institucionalizada pelo estado e pelas mineradoras. Com isso está associado o aumento de 200% no uso de ansiolíticos. Outro problema é a ecoansiedade; um artigo de revista internacional destacou que 40% das mulheres desistem da maternidade por medo do futuro, estamos falando de uma crise de esperança. A natureza como sujeito de direito é a única forma de garantir que o futuro exista. Considerando todos esses problemas, a deputada conseguiu uma vitória política: "Sem Mulher não tem Clima". Isso é um projeto que foi aprovado em tempo recorde. Ele coloca o mapeamento da violência climática na lei, assim o Estado é obrigado a reconhecer que um desastre ambiental não termina quando a água baixa ou a lama seca; ele continua no posto de saúde, na delegacia e na farmácia.
Ainda no decorrer de sua fala, a deputada destacou a ansiedade de quem vive em “rota de fuga”, onde o som de um trovão ou de uma máquina pesada é confundido com o som do fim do mundo; o negacionismo de dados, pois, assim como tentaram esconder as mortes por COVID em territórios tradicionais, tenta-se esconder o aumento do suicídio e da depressão nas áreas afetadas pela mineração e pela crise climática. Também é necessário atualizar o conceito de saúde para incluir o dano espiritual e mental; isso significa que não se trata apenas de cuidar do pulmão de uma criança que respira fuligem ou poeira de minério, mas de tratar o trauma de uma infância que cresce com medo da própria natureza. Portanto, reconhecer a “Natureza como Sujeito de Direito” é, no fundo, reconhecer o nosso direito de fazer parte dela sem morrer por isso.
Ao final da fala da deputada, ela e a professora Michelle foram convidadas a responder dúvidas e comentários da plateia. Nesse momento, a deputada mencionou a importância do trabalho dos brigadistas no controle de incêndios. A professora Michelle complementou destacando que o Corpo de Bombeiros de Itajubá necessita de um maior contingente, pois atende várias cidades do sul de Minas Gerais e, em momentos de crise, durante a estação seca, às vezes é preciso escolher qual ocorrência atender devido à falta de efetivo. Assim, a professora solicitou mais recursos para a corporação. Após essa sessão, a deputada demonstrou interesse em apoiar as atividades do projeto Amigos do Clima. A professora explicou a preocupação com as chuvas de verão e ressaltou a necessidade de um radar no sul de Minas Gerais para o monitoramento e a previsão de curto prazo de tempestades. Destacou que o equipamento é de alto custo e que, além disso, é necessário pessoal capacitado para operá-lo. A deputada solicitou à professora que encaminhasse o orçamento do radar à sua equipe de assessoramento.
Diante de todo esse contexto, encerro este texto ressaltando que a deputada Célia está fortemente engajada com as causas ambientais e com a saúde da mulher, temas de grande relevância, mas ainda de pouco interesse para muitos políticos. Assim, a deputada se destaca em seu meio.
Referências
Cullinan, C. (2011). Wild law: A manifesto for Earth justice (2nd ed.). Chelsea Green Publishing.
Gudynas, E. (2011). Derechos de la naturaleza: Ética biocéntrica y políticas ambientales. Disponível em https://gudynas.com/wp-content/uploads/GudynasDerechosNaturalezaLima14r.pdf
Boyd, D. R. (2017). The rights of nature: A legal revolution that could save the world. ECW Press.
Constituição do Equador de 2008. Ecuador. (2008). Constitution of the Republic of Ecuador. https://siteal.iiep.unesco.org/pt/bdnp/290/constitucion-republica-ecuador
Sugestões de leitura sobre o tema “Natureza como Sujeito de Direito”
https://www.jusbrasil.com.br/artigos/a-natureza-como-sujeito-de-direitos/1663473408
https://eventos.ufrrj.br/raic/files/2016/06/2419-9348-1-SM1.pdf
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