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15 de mai. de 2026
BRASIL O PAÍS DAS BOAS ENERGIAS
O Brasil é líder em energia limpa, mas enfrenta desafios de custo e infraestrutura.
Por Grupo Denarius
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Foto: Conexão Itajubá
Nós nem estamos falando da alegria do povo brasileiro, sua hospitalidade, receptividade e ânimo inigualável para festejar torcer e vibrar. O texto de hoje não é sobre carnaval, praia ou Copa do Mundo, mas sobre outras energias. Energias que podem mudar os resultados no seu bolso e no meio ambiente.
Lembrem-se, aqui falamos de economia, finanças pessoais e sustentabilidade. Historicamente, o Brasil é reconhecido internacionalmente por sua alegria, sua cultura e sua resiliência. Contudo, no cenário geopolítico e econômico do século XXI, um novo protagonismo se consolida: o de potência energética sustentável. Quando falamos que o Brasil está "cheio de boas energias", não nos referimos apenas ao espírito de seu povo, mas sim à constituição física e técnica de sua matriz energética e elétrica, que se destaca globalmente por ser uma das mais limpas e diversificadas do planeta.
Para entender esse cenário, é preciso primeiro diferenciar a matriz energética (o conjunto de fontes para movimentar carros, gerar calor e eletricidade) da matriz elétrica (exclusivamente para a geração de luz e força para a rede). Enquanto a média global de renovabilidade da matriz energética mal atinge os 15%, o Brasil já ultrapassou a marca dos 47%. Quando olhamos especificamente para a matriz elétrica, o cenário é ainda mais impressionante: cerca de 89% a 92% da nossa eletricidade provém de fontes renováveis, como a hidráulica, eólica, solar e biomassa.
Recentemente vivemos a Revolução das Fontes Intermitentes (Vento e Sol). Nos últimos dez anos, o Brasil viveu uma explosão na capacidade instalada de energia eólica e solar fotovoltaica. A energia eólica, concentrada fortemente no Nordeste e no Sul, já representa mais de 15% da nossa capacidade total. No entanto, o destaque recente é a energia solar. Segundo dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a fonte solar tornou-se a segunda maior fonte da nossa matriz elétrica, superando a eólica e ficando atrás apenas das grandes hidrelétricas. Só para vocês terem uma ideia a geração solar distribuída (os painéis nos telhados das casas e empresas) já ultrapassou os 30 GW de potência instalada, o que equivale a mais de duas usinas de Itaipu.
Essa ascensão não é fruto do acaso, mas de uma queda drástica nos custos tecnológicos e de condições geográficas privilegiadas associadas à políticas de promoção da geração de energia limpa que foi bem executada pelo governo do nosso país nos últimos anos. Entretanto, essa abundância traz consigo um paradoxo econômico e técnico que o consumidor médio ainda desconhece: o desafio da intermitência. Diferente de uma termelétrica a gás ou de uma hidrelétrica com reservatório, não podemos "ligar ou desligar" o sol e o vento conforme a nossa necessidade. Produzimos muito quando a natureza permite, e não necessariamente quando mais estamos consumindo.
Afinal, por que a conta de luz sobe com o excesso de energia gerada? É contraintuitivo pensar que "sobrar" energia possa encarecer a fatura, mas a explicação reside na engenharia do Sistema Interconectado Nacional (SIN) e na estrutura de subsídios. Em determinados horários do dia — especialmente entre as 10h e as 15h — a geração solar atinge seu ápice. Em alguns momentos, o Brasil produz tanta energia de fontes intermitentes que o Operador Nacional do Sistema (ONS) precisa realizar o chamado corte de geração para manter a estabilidade da rede, ou reduzir drasticamente a produção das hidrelétricas.
O custo elevado então decorre de três fatores principais:
1) Investimentos em Transmissão: Para escoar a energia produzida por parques solares e eólicos remotos até os grandes centros consumidores, o Brasil precisou investir bilhões em linhas de transmissão. Esse custo é repassado integralmente às tarifas através dos encargos.
2) Segurança do Sistema: Como o sol se põe e o vento pode parar, o sistema exige "backups". Muitas vezes, é necessário manter termelétricas em prontidão ou operar o sistema de forma mais complexa para garantir que não haja apagões na transição da tarde para a noite.
3) Subsídios Cruzados: Para fomentar o crescimento dessas energias limpas no passado, foram criados incentivos fiscais e descontos nas tarifas de uso do sistema TUST e TUSD.
TUST (Tarifa de Uso do Sistema de Transmissão) é o pagamento pelo uso das "grandes rodovias" da eletricidade. As linhas de alta tensão que transportam a energia das grandes usinas (hidrelétricas, parques eólicos e solares) por longas distâncias até os centros de carga. A ANEEL define os valores para remunerar as empresas de transmissão.
TUSD (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição) é o pagamento pelo uso das "avenidas e ruas" da cidade. Inclui o uso dos postes, transformadores e fios que levam a energia da subestação regional até a casa ou empresa do consumidor final. É o que sustenta a operação da concessionária local (como a CEMIG, no caso de Minas Gerais). Além da manutenção da rede, ela concentra a maior parte dos encargos e subsídios como um dos motivos do encarecimento da conta. À medida que o volume de geração aumenta, o peso desses subsídios na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) cresce, onerando todos os consumidores.
Se a conta de luz fosse um delivery de comida, a Energia seria o valor do prato, enquanto a TUST e a TUSD seriam o valor do frete — a logística necessária para que o produto chegue até a mesa do consumidor com segurança e qualidade. No Brasil, o "frete" tem subido consideravelmente devido à necessidade de expansão dessas "estradas" para comportar as novas fontes de energia.
Enquanto nosso sol, nossas águas e nosso vento geram muita energia elétrica limpa nossas terras produtivas também estão produzindo o Etanol. E se por um lado a eletricidade enfrenta desafios de custo e infraestrutura, por outro, o Brasil detém uma solução de descarbonização imediata e tecnicamente superior para o transporte: o etanol. Diferente de muitos países que precisam construir redes do zero, o Brasil já possui a infraestrutura e a tecnologia necessária.
Atualmente, a frota brasileira de veículos leves é composta por cerca de 80% de veículos flex-fuel. Isso significa que a vasta maioria dos brasileiros tem em mãos a escolha de emitir até 80% menos CO2 apenas optando pela bomba de etanol no posto de combustíveis. Do ponto de vista científico, o etanol de cana-de-açúcar possui um ciclo de vida extremamente eficiente, pois a planta captura o carbono durante o seu crescimento, compensando as emissões do escapamento.
Apesar da crescente narrativa global sobre veículos 100% elétricos (Battery Electric Vehicles - BEV), o Brasil possui uma vantagem competitiva no híbrido-flex. Enquanto o veículo elétrico puro no Brasil ainda enfrenta barreiras da falta de pontos de recarga — representando menos de 1% da frota total circulante, embora as vendas de eletrificados (híbridos + elétricos) tenham saltado quase 100% no último ano — o uso do etanol é uma solução de longa tradição e história de investimentos e de promoção do setor no Brasil.
A frota circulante no Brasil ultrapassa os 46 milhões de veículos leves. Destes: Aproximadamente 37 milhões são Flex. Cerca de 6 milhões ainda são movidos exclusivamente a gasolina (modelos mais antigos ou importados). Os veículos puramente elétricos ainda não somam 200 mil unidades, embora o ritmo de crescimento seja acelerado (superando as 50 mil vendas anuais recentemente).
A transição para o veículo elétrico no Brasil será gradual e deve, preferencialmente, ser alimentada pela nossa matriz limpa. Abastecer um carro elétrico no Brasil é muito mais sustentável do que na Alemanha ou nos EUA, onde a energia costuma vir da queima de carvão ou gás natural. No entanto, enquanto essa frota não se populariza, o estímulo ao uso do biocombustível é a maneira mais rápida de aproveitar a "boa energia" que vem do nosso campo e diminuir a nossa dependência do petróleo.
Mas e o que tudo isso tem a ver com as minhas finanças? Aí é que entra o papel do consumidor e do cidadão. O título "Brasil, um país cheio de boas energias" deve ser encarado como um chamado à consciência econômica. Temos um sistema elétrico de causar inveja ao mundo, mas que exige uma gestão inteligente. O consumidor pode e deve buscar eficiência: se a energia é abundante durante o dia, faz sentido deslocar consumos industriais ou carregamentos de veículos elétricos para esses horários, ajudando a equilibrar a rede.
Simultaneamente, na hora de escolher o combustível, a decisão pelo etanol não deve ser pautada apenas pelo cálculo de "70% do preço da gasolina", mas pelo entendimento de que estamos fortalecendo uma cadeia produtiva nacional e sustentável.
O Brasil não precisa buscar soluções externas para a crise climática; nós já as produzimos em nossos parques eólicos, em nossos telhados solares e em nossas usinas de cana. Entender que essa abundância tem custos de integração é o primeiro passo para cobrarmos políticas públicas que transformem esse excesso de oferta em redução real na conta de luz do cidadão, tornando a energia limpa não apenas uma conquista técnica, mas uma vantagem competitiva para o bolso de todos os brasileiros.
Esperamos que tenham gostado do nosso painel de hoje. Até a próxima!
Por Prof. Dr. André Luiz Medeiros e Prof. Dr. Moisés Diniz Vassallo
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