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17 de dez. de 2022
Ciência, Ciclones e Bali
Qual a conexão entre as três palavras, “Ciência, Ciclones e Bali”, do título desse artigo? A resposta será obtida através da leitura completa do texto.
Por Conexão Itajubá
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Qual a conexão entre as três palavras, “Ciência, Ciclones e Bali”, do título desse artigo? A resposta será obtida através da leitura completa do texto.
Vou iniciar com uma outra pergunta, que acredito que todo professor, independentemente de ser universitário ou do ensino básico, já teve que responder: “você só dá aula?”. Inúmeras vezes já me deparei com esse questionamento realizado até mesmo por pessoas com ensino superior (que deveriam ter um melhor conhecimento das atividades de um docente). Esse é um tipo de questionamento que me incomoda, pois no caso de um professor universitário, as aulas são apenas uma pequena parte (ou a ponta de um iceberg) de suas atribuições, já que esse atua em quatro pilares, ensino, pesquisa, extensão e administração.
O ensino contempla a preparação de materiais didáticos e de aulas, a exposição em sala de aula, horário extraclasse para atendimento a dúvidas relacionadas às disciplinas ministradas e a orientação de discentes que estão desenvolvendo seus trabalhos de iniciação científica, final de curso, dissertação de mestrado ou tese de doutorado. A pesquisa é a parte em que dedicamos nosso tempo em coleta de dados, experimentos e análise de dados a fim de melhorar o conhecimento sobre um determinado assunto ou fazer uma nova descoberta. Você já parou para pensar que os móveis, eletrodomésticos e eletrônicos que você possui só existem graças aos pesquisadores? Se você tem um televisor com alta resolução para assistir aos jogos da Copa é porque muita gente trabalhou desenvolvendo tecnologia para transmissão de sinal via satélite (então a Terra não é plana), para desenvolver os componentes do seu televisor ou celular do menor tamanho possível etc. A extensão é a parte em que a universidade, através de todos os seus membros (servidores técnicos, professores e alunos), desenvolve estratégias de integração com a comunidade a fim de apresentar suas pesquisas, escutar as necessidades e anseios da população e, através do conhecimento obtido, propõe soluções para os problemas enfrentados por essa. Além disso, a extensão envolve a comunicação com os tomadores de decisão. A atividade que faço com a colaboração do radialista Octávio no programa Conexão Ambiente é um exemplo de extensão. Ter um canal em que a população pode encaminhar dúvidas, pedido de auxílio para resolução de problemas associados às questões ambientais, sugerir temas para bate-papo são todas atividades de extensão. Por fim, a administração é a parte em que o docente precisa assumir atividades de coordenação como, por exemplo, coordenar um curso de graduação ou de pós-graduação (cuidar dos horários de aulas, das matrículas e da vida acadêmica dos seus estudantes, criar estratégias para melhorar o interesse dos alunos, responder pelo curso às instâncias superiores etc.). Por que mencionei tudo isso? Para o leitor conhecer as atividades docentes (evitar a pergunta “você só dá aula?”) e compreender o objetivo deste artigo.
Voltando às palavras objeto dessa matéria, “ciência” envolve pesquisa, e pesquisa só é passível de realização quando se tem investimento para a aquisição de materiais para seu desenvolvimento e financiamento para auxiliar os pesquisadores (como, por exemplo, bolsas para alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado). No meu caso, eu trabalho com uma grande quantidade de dados, o que requer investimento para aquisição de computadores de alto desempenho e espaço para armazenamento de dados, já que tenho como objeto de estudo o entendimento dos ciclones em cenários futuros. Nossa! Acabei de complicar o texto, né leitor? “Ciclones” são sistemas na atmosfera que possuem giro que segue os ponteiros do relógio no Hemisfério Sul. Existem ciclones com diferentes escalas no tempo e espaço, mas o meu foco são os sistemas com duração média de 3 dias e diâmetro superior a 1000 km (chamados ciclones de escala sinótica). Aproveito a oportunidade para mostrar a diferença entre ciclone e tornado. No caso dos ciclones de escala sinótica, um observador na superfície não consegue ver o sistema na totalidade, pois como é enorme, ficamos embebidos nele; só é possível sentir atuação do sistema devido ao aumento da nebulosidade, chuvas, queda na temperatura, ventos fortes e, no mar, agitação marítima. A visualização completa do sistema necessita do auxílio do imageamento da atmosfera através de satélites (tecnologia que envolve muita ciência). Já os tornados são estruturas com forma de funil que se estendem da base das nuvens ao solo e produzem ventos muito mais intensos do que os dos ciclones. Como a escala espacial dos tornados é muito menor do que a dos ciclones, você consegue vê-lo (Figura 1).
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Figura 1a: Ciclone extratropical sobre o Atlântico Sul no dia 16/04/2022 visto através e imagem de satélite (fonte: ZOOM EARTH)[/caption]
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Figura 1b: imagem de um tornado atingindo São José dos Campos em 10/03/2021 (fonte: https://pleno.news/brasil/cidades/tornado-com-ventos-de-ate-95-km-h-atinge-cidade-paulista.html).[/caption]
Meu interesse nos ciclones de escala sinótica vem desde o início da minha vida como estudante universitária, pois como sou natural da cidade de Rio Grande, RS (extremo sul do Brasil), que está localizada numa região propícia à formação de ciclones ou rota deles, sempre vivenciei mudanças no tempo associadas aos ciclones. Na costa leste da América do Sul há três regiões de gênese de ciclones: costa sul/sudeste do Brasil, extremo sul do Brasil e Uruguai e sul da Argentina. Eu estudo os processos que contribuem para a formação desses sistemas, seus aspectos climatológicos e como será a distribuição espacial, frequência e intensidade deles no clima futuro. Esse tipo de estudo demanda muitos recursos financeiros, pois uma ideia do futuro só é possível através de modelos numéricos (da resolução de equações) e para o cálculo envolvido nos modelos e armazenamento de dados são necessários computadores de alto desempenho e muito espaço em disco rígido já na ordem de petabytes. Para a realização desse tipo de pesquisa possuo colaboração internacional (principalmente com a Itália e Paquistão) e nacional, com a Universidade de São Paulo (USP) e com a empresa MC&E Consultoria e Engenharia. Através dessas colaborações tenho contribuído para aumentar o conhecimento de diferentes aspectos dos ciclones de escala sinótica no oceano Atlântico Sul.
Como o tema ciclones é o carro chefe das minhas pesquisas, um dos meus sonhos como pesquisadora era o de ser convidada para o Workshop Internacional de Ciclones Tropicais (IWCT) promovido pela Organização Meteorológica Mundial. A primeira edição do workshop foi em 1985, quando eu ainda era uma criança, e o evento é realizado a cada quatro anos. Como minhas pesquisas nos últimos anos ganharam grande notoriedade internacional (https://scholar.google.com.br/citations?user=w3X_v70AAAAJ&hl=pt-BR&authuser=1), no início desse ano fui convidada para redigir parte do relatório estado-da-arte no conhecimento dos ciclones no item sobre mudança de fase dos ciclones. O relatório foi desenvolvido ao longo de 2022 por um grupo de pesquisadores internacionais e uma síntese foi apresentada na décima edição do IWCT que ocorreu em “Bali” na Indonésia entre os dias 05 e 09 de dezembro do corrente ano. Os workshops sobre os ciclones tropicais são restritos aos autores do relatório e aos previsores, principalmente, dos centros de meteorologia de locais atingidos por ciclones tropicais. Nos workshops são discutidos o conhecimento mais atual no que diz respeito aos ciclones (as três palavras do título agora se conectam!). No workshop em Bali foi apresentado um resumo com o conhecimento que se tem até a atualidade sobre os ciclones e discutidos os pontos que ainda necessitam de pesquisa mais aprofundada. Ao final da conferência foram apresentados 21 recomendações de estudos necessários e que em breve serão divulgadas ao público.
A Figura 2 mostra uma foto dos participantes no primeiro dia do workshop. Já a Figura 3 mostra a minha participação com outros pesquisadores no segundo e quinto dia do evento.
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Figura 2 Participantes do IWCT10 no primeiro dia de evento.[/caption]
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Figura 3 esquerda: Profa. Michelle Reboita juntamente com duas previsoras de tempo de Jacarta no segundo dia do evento; centro: com os pesquisadores John McBride da Austrália (lado direito da imagem) e Dr. Albert Martis, vice-diretor da Organização Meteorológica Mundial (OMM, lado esquerdo da imagem); na direita, um momento de interação com uma participante do evento no quinto dia do evento.[/caption]
Agora vamos conversar sobre Bali, que é uma das ilhas que formam a Indonésia (Figura 4). Para chegar lá, voei 14 horas do aeroporto de Guarulhos ao aeroporto de Doha, no Catar, e mais 10 horas de Doha a Bali. O setor de desembarque do aeroporto de Bali é maravilhoso, parece um museu, pois há inúmeras obras-de-arte, como pinturas, esculturas e estátuas (Figura 5).
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Figura 4 Localização de Bali na Indonésia (indicada pela seta branca na imagem). Fonte: Google Maps.[/caption]
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Figura 5 Obras-de-arte no setor de desembarque internacional no aeroporto de Bali. Fotos de Michelle Reboita.[/caption]
Bali tem religião diversificada, mas o hinduísmo (adoração a diferentes deuses) se ressalta, pois em locais públicos, comércios e em residências há muitas estátuas de deuses e oferendas. Se você leu o meu artigo sobre Kathmandu, no Nepal, (publicado nessa mesma mídia no dia 02/12/2022), perceberá algumas semelhanças e diferenças entre Kathmandu e Bali. A comparação está sendo realizada, pois são locais não muito distantes. Ambas localidades se destacam pelo hinduísmo, não há código restrito de vestimenta (usam roupas similares às nossas) embora muitos ainda usam vestimentas típicas; as pessoas são muito acolhedoras e prestativas, mas o aspecto negativo é o trânsito de veículos nessas cidades (mas o tráfego ainda é pior no Nepal), bem como a falta de sinalização para travessia de pedestres. É uma aventura ter que atravessar as ruas sem sinalização. O código do pedestre é o levantamento da mão, mas para mim isso é assustador, pois não garante que os motoristas parem. Além disso, o lado do motorista é contrário ao nosso, o que torna ainda mais difícil para nós, cidadãos do Ocidente, atravessarmos as ruas, pois olhamos para os lados contrários aos do trânsito. Sobre as diferenças: enquanto em Kathmandu a atmosfera é muito poluída, em Bali, mesmo com uma grande frota veicular, é muito mais limpa. Pela distribuição das ruas, acredito que Bali tenha um melhor plano gestor do que Kathmandu. A arborização é dominante em Bali e praticamente ausente na maior parte de Kathmandu. Em Bali a alimentação é baseada em legumes, arroz, macarrão, frutos do mar e frango. Carne vermelha é mais escassa. A comida não é apimentada e carregada de curry e cominho como em Kathmandu.
No terceiro dia do workshop, o evento organizou uma excursão para conhecermos o centro de previsão meteorológico BMKG de Bali (Figura 6) e uma visita ao templo de Uluwatu, que é uma construção sobre penhascos habitada por muitos macaquinhos (Figura 7) e cercado por uma linda praia. Esses pequenos habitantes do templo adoram “roubar” os pertences dos visitantes, como óculos, celulares e alimentos. Não se pode entrar no templo com as pernas expostas. Assim, na entrada há o empréstimo do sarong, um tipo de canga de cor roxa usada nos templos religiosos. O templo conta com uma arena para apresentações artísticas. Tivemos a oportunidade de assistir a um espetáculo envolvendo dança e mitologia (Figura 8).
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Figura 6 Centro de previsão meteorológica de Bali. A primeira foto à esquerda mostra uma estátua na entrada do centro de previsão; as demais imagens mostram o interior do centro operacional.[/caption]
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Figura 7 Imagens do templo de Uluwatu. Fotos cedidas pelo Dr. John McBride.[/caption] [caption id="attachment_73336" align="aligncenter" width="584"]
Figura 8 Descrição do espetáculo no templo de Uluwatu e fotos do espetáculo. Fotos: Michelle Reboita.[/caption]
Bali tem um clima similar ao da região norte do Brasil: quente e úmido. Por isso, é atrativo para visitação às praias. Antes de chegar a Bali, pensava que todas as praias possuíam areia de coloração branca e águas translúcidas, isso foi um ponto de decepção. Como as ondas são intensas, há mistura de sedimentos, deixando a coloração da água amarronzada. Isso lembra muito as praias do sul do Brasil. Outro ponto negativo foi que em muitas partes de Bali as praias não ficam expostas, pois os resorts cobrem a visão, como na orla de Kuta. Além disso, em várias áreas, a beira-mar é tomada de garrafas pet e outros lixos. Praias com condições de banho estão mais afastadas do centro urbano. No último dia, o workshop acabou mais cedo, e eu também fui conhecer a praia da área mais turística de Bali. Essa praia, na região de Seminiak, é apropriada para banho e não é escondida pelos resorts (Figura 9). Afastados da praia há inúmeros resorts que permitem aos turistas não hospedados neles usarem as áreas de recreação, como bares e piscinas. Sobre o artesanato da região, isso não tive tempo para explorar. Porém, ao passar na frente de algumas lojas percebi que há réplicas de deuses em diferentes tamanhos e materiais.
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Figura 9 Pôr do sol na praia da região de Seminiak no dia 05 de dezembro de 2022. Foto cedida pelo Dr. John McBride.[/caption]
Acredito que Bali seja mais atrativa ao turismo pela sua religião, atmosfera exótica e áreas naturais do que pelas praias. Há muitas áreas naturais para serem visitadas. Como fiquei apenas uma semana em Bali e envolvida no workshop, quase não consegui fazer uma exploração turística do local. Bom, encerro esse texto por aqui e espero que você tenha aproveitado a leitura.
Por Michelle Reboita
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