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18 de jul. de 2026
COR DE MARAVILHA
Por Misa Ferreira
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Foto: Misa Ferreira
Há poucos dias saí para um encontro de café com duas amigas. Entre uma conversa e outra uma delas elogiou minha blusa. Eu me apressei a dizer que comprei três blusas, uma de cada cor, a verde que eu usava no momento, a lilás claro e a terceira, cuja cor eu não conseguia nomear. Poderia chamá-la de grená, porque era essa a denominação correta, mas me recusava a aceitar esta denominação tão técnica, e assim, do nada, intuitivamente, eu disse simplesmente: cor de maravilha! Elas riram e eu também porque não se usa mais dizer o nome dessa cor. A cor de maravilha nunca foi um nome técnico, mas mágico, pois carregava um raro encantamento. Não sei de qual recanto de minha memória eu trouxe a cor de maravilha! Porque desde menina, nunca mais eu disse “cor de maravilha”. Soou estranho para mim. Passou. Conversamos sobre outras coisas. Voltei para casa, e a cor de maravilha veio comigo, como se não aceitasse voltar ao esquecimento.
A princípio eu pensei que tivesse sido apenas um lapso infantil, mas aos poucos percebi que não era um lapso, mas uma lembrança, como se a cor de maravilha tivesse ganhado vida própria me convidando a passear pelos bulevares encantados de minha infância. Depois de tantos anos, revi as caixas de lápis de cor sobre a mesa e a menina que eu fui alinhando todos eles, lado a lado, apenas para admirar as cores. Eu não sabia desenhar nem colorir, eu apenas queria contemplar a beleza das cores que transitavam entre matizes mais escuros e claros. E lá estava o lápis cor de maravilha se fixando em minha memória.
Paralelamente a essa lembrança veio outra lembrança que permaneceu intacta ao longo de toda minha vida. Eu muito menina na casa de minha avó, contemplando a árvore de Natal com bolas grandes de várias cores, inclusive a cor de maravilha. Fascinada, eu permanecia diante da árvore carregada de bolas que pareciam guardar luz dentro delas. E aprendi uma “mágica” que ninguém sabia: eu semicerrava os olhos até conseguir que a imagem ficasse embaçada, e as cores se desmanchavam em outras múltiplas cores. Por várias vezes, até hoje, eu tento fazer isso e não consigo mais.
E agora, eu mesma me pergunto: em que momento de minha vida eu perdi o encantamento? Em que momento de minha vida eu deixei de chamar a cor de maravilha para dizer grená? Talvez na vida adulta eu tenha aprendido os nomes das cores, mas desaprendido a reconhecer a “cor de maravilha”, que, afinal, nunca foi apenas uma cor, mas um jeito de sentir e de viver poeticamente, rodeada de beleza e de delicadezas.
E então compreendi que talvez eu nunca tenha perdido o encantamento. Apenas deixei de visitá-lo. A cor de maravilha não desapareceu; permaneceu silenciosa, esperando o instante de voltar a me chamar pelo nome. Também compreendi que ver é muito pouco. Urge reaprender a arte de contemplar. E por fim, a cor de maravilha continua intacta. Ela sempre esteve dentro de mim!
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