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31 de out. de 2026
DAR O QUE É MAIS CARO PARA NÓS
Ao ceder seus chinelos a uma mulher que os desejava, o narrador sente perda como um tesouro, mas medita sobre o aprendizado espiritual do desapego e a alegria de ajudar o outro.
Por Misa Ferreira
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Foto: Misa Ferreira
Certa vez uma mulherzinha que sempre pedia ajuda para minha mãe, cravando os olhos nos meus pés, ela me pediu se eu podia dar meus chinelos para ela. Eu achei graça e disse que assim que eu pudesse compraria outros para presenteá-la. A mulherzinha olhou, olhou para baixo e simplesmente disse: Mas eu queria esses seus. Eram chinelos simples, bonitinhos e muito confortáveis, nada caro, nem de luxo, mas eram meus e eu gostava muito deles! Eu titubeei e acabei tirando os chinelos dos meus pés e passando para ela que foi embora radiante de alegria. Fiquei me sentindo usurpada dos chinelos como se tivesse perdido um tesouro! Por que é tão difícil dar o que é mais caro para nós? Pra mal dos pecados, nunca encontrei outros chinelos como aqueles e me lembro até hoje dos detalhes de azul que enfeitavam meus chinelinhos!
Como uma cereja traz outra cereja, lembrei-me de um filme a que assisti há muito tempo com a Shirley MacLaine, “Minhas vidas”, em que a personagem está em Machu Picchu para um aprendizado espiritual. E uma camponesa pede humildemente que a atriz dê a ela seu anel. Era uma aliança de valor afetivo que ela trazia fervorosamente presa ao dedo, e ela hesita, embora estivesse ali justamente para aprender a se desapegar das coisas deste mundo. Lembro-me com exatidão da fisionomia da personagem sofrendo ao tirar a aliança do dedo, constatando a dificuldade de se praticar o desprendimento.
Enquanto habitarmos este corpo que nos foi dado por Deus, haveremos de sofrer esses conflitos e haveremos de carregar nossos pecados, pois que façamos isso com humildade. Por enquanto vou meditando no que diz a palavra, vou refletindo sobre as vaidades deste mundo, consciente de que não sou dona de nada, porém não posso ainda deixar de cobiçar um vestidinho bonito de “pois”, um brinquinho qualquer e um batom cor de rosa. Nada extravagante ou sofisticado, mas simplesmente bonito.
Doeu ficar sem meus chinelinhos preferidos, contudo eu reflito: poderá haver alegria maior no mundo que ter contribuído para a alegria daquela mulherzinha?
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