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11 de set. de 2026
El Niño e Aquecimento Global: Uma combinação perigosa para a sociedade
O mês mais quente desde 1850 coincide com um El Niño intenso, elevando riscos climáticos e reforçando a urgência de mitigar emissões, adaptar setores e intensificar o monitoramento no Brasil.
Por Michelle Reboita
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Foto: Conexão Itajubá
O mês de agosto de 2026 foi o mais quente de todos os agostos e empatou com o mês mais quente já registrado em relação ao período pré-industrial (1850-1900), que foi julho de 2023 com uma anomalia (diferença da média do mês em relação ao período 1850-1900) de 1,65 oC (Copernicus, 2026). Esse valor reflete a combinação do aquecimento global causado principalmente pelas atividades humanas, sobretudo pela emissão de gases de efeito estufa, com o aquecimento excepcional das águas do oceano Pacífico Tropical associado ao atual episódio de El Niño. Os prognósticos para os próximos meses, com a intensificação do El Niño para um evento muito forte (quando as temperaturas da superfície do oceano na região do Pacífico Tropical central superam 2,0oC - índice RONI; CPC/NOAA, 2026a), não são nada promissores para o clima global.
O desafio dos 1,5 °C
Precisamos voltar a 2015, quando os países signatários do Acordo de Paris estabeleceram o compromisso de manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2 °C em relação aos níveis pré-industriais e de empreender esforços para limitar esse aumento a 1,5 °C. Esses valores não foram escolhidos de forma arbitrária. Eles resultam de décadas de pesquisas sobre os impactos do aquecimento global, os riscos para os ecossistemas e a sociedade e a possibilidade de ultrapassagem de determinados limiares críticos do sistema climático. É importante, entretanto, fazer uma distinção: ultrapassar 1,5 °C não significa que automaticamente ocorrerá um único e irreversível “ponto de não retorno”. Os riscos aumentam progressivamente à medida que a temperatura sobe e quanto mais tempo ela permanece elevada. Alguns impactos, contudo, podem se tornar irreversíveis em escalas de tempo humanas.
Um exemplo é o derretimento de grandes massas de gelo. Mesmo que a temperatura global volte a diminuir posteriormente, a recuperação de uma geleira ou de uma grande camada de gelo pode ocorrer em escalas de tempo muito superiores àquelas relevantes para os humanos. O mesmo princípio se aplica a determinados impactos sobre ecossistemas, biodiversidade e nível do mar. De forma simples, imagine o gelo da Antártica derretendo. Teria como restaurar o gelo imediatamente? A resposta é não. Isso é um ponto de não retorno.
O aquecimento não está desacelerando
Desde a assinatura do Acordo de Paris, as emissões globais de gases de efeito estufa não diminuíram na velocidade necessária para evitar o aumento das temperaturas. O resultado é a continuidade do acúmulo de dióxido de carbono (CO₂) e outros gases de efeito estufa na atmosfera. O CO₂ atua como um agente que reduz a perda de energia da Terra para o espaço. Como consequência, mais energia permanece no sistema climático, provocando o aquecimento da atmosfera, dos oceanos e da superfície terrestre (vide o aumento do CO2 em NOAA, 2026).
Nesse contexto, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA - UNEP, 2026) publicou, em 2 de setembro de 2026, o relatório Limiting Overshoot – Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return. O documento conclui que a ultrapassagem de 1,5 °C nos próximos anos é, nas condições atuais, amplamente considerada inevitável. Entretanto, isso não significa que o limite esteja “perdido para sempre”. O relatório mostra que ainda é possível limitar o pico de aquecimento e, posteriormente, reduzir a temperatura por meio de uma trajetória de ultrapassagem, pico e declínio (overshoot, peak and decline). De acordo com o PNUMA, mesmo no cenário mais favorável, o aquecimento poderá atingir aproximadamente 1,8 °C antes de começar a diminuir. Além disso, quanto maior o pico de aquecimento e quanto mais tempo a temperatura permanecer acima de 1,5 °C, maiores serão os riscos para as sociedades e os ecossistemas.
Net-zero não significa imediatamente resfriar o planeta
É importante também compreender o conceito de net-zero. Alcançar emissões líquidas zero de CO₂ significa equilibrar as emissões de CO₂ com as remoções de CO₂ da atmosfera. Isso é fundamental para estabilizar a temperatura global, mas não significa que a temperatura começará imediatamente a diminuir. Para reduzir a temperatura após um período de ultrapassagem de 1,5 °C, será necessário alcançar emissões líquidas negativas, ou seja, remover da atmosfera mais CO₂ do que aquele que é emitido.
O PNUMA estima que, para reduzir a temperatura média global em aproximadamente 0,1 °C, seria necessário remover cumulativamente cerca de 220 bilhões de toneladas de CO₂ da atmosfera. Essa quantidade evidencia a enorme dificuldade de utilizar a remoção de carbono como uma estratégia para compensar um aquecimento que já ocorreu. Além disso, a redução posterior da temperatura não significa necessariamente que todos os impactos serão revertidos. O nível do mar, por exemplo, continuará respondendo por séculos ou milênios, e perdas de biodiversidade e alterações de ecossistemas podem não ser recuperadas simplesmente porque a temperatura média global diminuiu.
Por isso, reduzir as emissões agora é muito importante para o futuro não ser ainda pior.
E agora ainda temos o El Niño
Em meio a esse cenário de aquecimento global, soma-se a influência do atual El Niño. É importante destacar que El Niño e aquecimento global são fenômenos diferentes. O aquecimento global representa uma tendência de longo prazo associada principalmente ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa (aqueles produzidos pelas ações humanas, como a queima de combustíveis fósseis). Já o El Niño é uma manifestação de variabilidade natural do sistema climático, associada ao acoplamento entre o oceano e a atmosfera no Pacífico Tropical. Entretanto, os dois fenômenos podem atuar simultaneamente. Um El Niño forte tende a elevar temporariamente a temperatura média global e modificar os padrões de circulação atmosférica e precipitação em diversas regiões. O atual episódio já apresenta características excepcionais, por exemplo, as anomalias no Pacífico, próximo à costa oeste da América do Sul (região de Niño 1+2), já são de 4,6 °C (CPC/NOAA, 2026b).
O que está acontecendo no Brasil?
Desde o final de agosto, os estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e o sul de Minas Gerais vêm apresentando uma sequência de dias chuvosos. Parte desse padrão está relacionada à configuração atmosférica associada ao El Niño, embora seja importante ressaltar que um único fenômeno não explica sozinho toda a variabilidade da chuva observada em uma determinada região. De forma geral, durante episódios de El Niño, aumenta a probabilidade de condições mais chuvosas no Sul do Brasil, enquanto partes da Amazônia, do Nordeste e do norte da América do Sul podem apresentar condições relativamente mais secas.
É importante mencionar que as configurações atmosféricas e impactos de um evento El Niño também podem se diferenciar em relação a outro. A intensidade do evento, sua localização no Pacífico, por exemplo, se o aquecimento é mais concentrado no Pacífico Central ou no Pacífico Leste, e a interação com outros sistemas atmosféricos são fatores importantes para determinar a distribuição regional das chuvas. Pesquisadores como os autores desse texto e do Grupo de Estudos Climáticos da Universidade de São Paulo (GrEC-USP), têm acompanhado as características atmosféricas associadas ao atual episódio.
As análises indicam que os ventos de altos níveis, próximos à tropopausa e localizados aproximadamente a 10 km de altitude, apresentam alterações de intensidade e posição em relação ao padrão climatológico. Essas mudanças podem deslocar as regiões mais favoráveis à formação e organização de sistemas de chuva, contribuindo para que áreas de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e sul de Minas Gerais apresentem condições diferentes daquelas normalmente associadas aos episódios de El Niño.
As previsões numéricas disponíveis indicam a possibilidade de persistência de condições favoráveis à ocorrência de chuva durante a primavera de 2026, especialmente em parte do Sul e Sudeste do Brasil. Para o sul de Minas Gerais, portanto, há indicação de uma primavera potencialmente mais chuvosa, embora essa previsão deva ser interpretada em termos probabilísticos, e não como uma garantia de chuva acima da média em todos os municípios.
Impactos na agricultura
Mudanças nos padrões de precipitação podem afetar diretamente diversos setores econômicos, especialmente a agricultura e a pecuária. No Sul do Brasil, o excesso de chuva pode dificultar o plantio, a colheita, o manejo do solo e o transporte da produção. Em outras regiões do país, por outro lado, a redução das chuvas pode aumentar o risco de déficit hídrico.
A Embrapa publicou, em setembro de 2026, uma Nota Técnica com 163 medidas para a gestão de riscos climáticos na agropecuária brasileira durante o El Niño 2026/2027 (Embrapa, 2026). O documento foi elaborado com participação de aproximadamente 50 especialistas e inclui medidas relacionadas ao monitoramento meteorológico, planejamento das atividades agrícolas, manejo do solo, escolha de cultivares, irrigação, drenagem, seguro rural, planos de contingência e fortalecimento das políticas públicas de gestão de riscos.
A produção de alimentos depende fortemente das condições climáticas. Eventos de excesso de chuva, seca, calor extremo e tempestades podem reduzir a produtividade agrícola e aumentar os custos de produção. Em determinadas circunstâncias, isso pode repercutir sobre a oferta de alimentos e, consequentemente, sobre os preços.
O que podemos fazer?
Diante da combinação entre aquecimento global e El Niño, é necessário atuar em diferentes frentes: (a) A primeira é a mitigação, ou seja, reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa. Quanto menores forem as emissões acumuladas, menor será o aquecimento futuro; (b) a segunda é a adaptação. Precisamos preparar nossas cidades, sistemas de produção, infraestrutura e serviços públicos para lidar com um clima que já mudou e continuará mudando nas próximas décadas e (c) a terceira envolve o desenvolvimento responsável de estratégias de remoção de CO₂ da atmosfera, que serão importantes para alcançar emissões líquidas negativas e, em determinadas trajetórias, reduzir o aquecimento após um eventual período de ultrapassagem de 1,5 °C. Entretanto, a remoção de carbono não deve ser utilizada como substituta da redução das emissões.
No Brasil, a adaptação precisa incluir o fortalecimento dos sistemas de monitoramento meteorológico e hidrológico, especialmente em escala municipal. Os municípios devem contar com profissionais capacitados e estabelecer uma relação permanente entre os centros de monitoramento, os órgãos de planejamento e a Defesa Civil. Também é fundamental desenvolver e atualizar regularmente planos de contingência para eventos extremos, realizar exercícios de preparação e oferecer treinamento contínuo à população. Afinal, não basta possuir um plano de contingência. É necessário que a população saiba o que fazer quando um evento extremo ocorrer. O desafio climático que enfrentamos não será resolvido por uma única ação. É necessário combinar redução das emissões, adaptação, monitoramento, ciência, planejamento urbano, gestão de riscos e preparação da sociedade.
Nota Final
O El Niño de 2026–2027 é um lembrete de que a variabilidade natural do clima continua atuando em um planeta que está cada vez mais quente. A combinação desses dois fatores pode aumentar os riscos de eventos extremos e seus impactos sobre a sociedade. Quanto mais demorarmos para reduzir as emissões e preparar nossas cidades e sistemas produtivos, maior será o desafio que deixaremos para as próximas gerações.
Referências
CPC/NOAA, 2026a: Official NOAA CPC ENSO Strength Probabilities
Issued September 2026. Disponível em
https://cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso/roni/strengths/
CPC/NOAA, 2026b: Weekly SST data starts week centered on 2Sept1981. Disponível em https://cpc.ncep.noaa.gov/data/indices/wksst9120.for
Copernicus, 2026. Surface air temperature for August 2026. Disponível em https://climate.copernicus.eu/surface-air-temperature-august-2026
Embrapa, 2026: NOTA TÉCNICA EMBRAPA - El Niño 2026/2027 - 163 Medidas para a Gestão de Riscos Climáticos na Agropecuária Brasileira. Disponível em https://www.embrapa.br/documents/d/agricultura-digital/nota-tecnica-el-nino-2026-2027
NOAA, 2026. Global Monitoring Laboratory. Disponível em https://gml.noaa.gov/ccgg/trends/
UNEP - United Nations Environment Programme (2026). Limiting Overshoot: Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return. Nairobi. https://doi.org/10.59117/20.500.11822/49857
Autores:Michelle Simões Reboita, Bruno César Capucin, Felipe Vemado e Luiz FelippeGozzo
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