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6 de jun. de 2026
“ESPRIT DE GÉOMETRIE” E “ESPRIT DE FINESSE”
A importância da gentileza e compaixão na vida cotidiana
Por Misa Ferreira
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Foto: Misa Ferreira
As expressões são francesas e de Blaise Pascal, um gênio da matemática, inventor da máquina de calcular, filósofo, e mais um tanto de coisas que só os gênios são capazes. De Pascal eu só conhecia a frase “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, mas o “espírito de geometria” e o “espírito de gentileza” me conquistaram. Enfim, o que seria isso? Como o próprio nome diz, espírito de geometria seria a razão matemática, a razão exata, a de elementos invariantes, já o espírito de finura ou de gentileza representa a razão cordial, a lógica de coração, de acordo com Pascal. E o coração, este realmente tem razões que a própria razão não considera, o coração é um estranho para a razão.
Colocando as coisas de outra maneira poderíamos dizer que: espírito de gentileza é o perdão e o espírito de geometria é a dureza de coração. O medicamento no hospital é o espírito de geometria, e a visita de quem ora pelos doentes é o espírito de gentileza. Espírito de geometria é o professor que não considera uma possibilidade diferente na resposta do aluno, e o espírito de gentileza é o professor que resgata um aluno perdido. Espírito de gentileza é a compreensão e espírito de geometria é o julgamento. Espírito de gentileza é a compaixão e espírito de geometria é a indiferença. Espírito de gentileza é a solidariedade e o espírito de geometria é o egocentrismo. A ciência seria a geometria e a espiritualidade a gentileza.
Pascal dizia que essa contradição era necessária para a nossa vida, e que mesmo ambas as razões, a exata, calculada e a razão do coração são imprescindíveis. Elas se combateram, depois marcharam juntas, e hoje se convergem na diversidade. Não é que o espírito de geometria seja mau, ele é um lado objetivo que também faz falta, é necessário, porém a humanidade dos dias atuais nunca precisou tanto do espírito de gentileza. Hoje, mais do que nunca, urge o espírito de gentileza neste mundo caótico em que estamos inseridos.
Bem, para ilustrar de forma prática: no filme “O carteiro e o poeta”, tem uma cena em que o poeta, ateu convicto, entra em uma igreja para se preparar para o batizado de seu afilhado, filho do carteiro. Mesmo sendo ateu, o poeta demonstra um comovente espírito de gentileza ao se ajoelhar e se persignar em respeito ao rito que assim ensina.
E para finalizar, numa noite dessas atrás, ao telefonar para minha prima, já de noite, flagrei-a no caminho da casa de uma vizinha do bairro, no campo. Disse-me ela que estava levando uma cordinha mais comprida para o cãozinho doente que precisava ficar preso e ela ficara condoída ao ver que o bichinho pouco podia se movimentar pela cordinha curta no pescoço. Uma pessoa que se presta a deixar o conforto de sua casa para dar mais alívio para um cãozinho doente é outro exemplo brilhante do espírito de gentileza.
Há alguns dias minha irmã mais nova nos contou no nosso grupo de irmãs que vinha vindo pra casa quando viu no lixo uma caminha de cachorro que podia ser restaurada. Ela levou para casa, lavou, trocou o enchimento e o forro, e doou numa clínica veterinária que acolhia cães e gatos para serem adotados. Ela e a família já tem um cãozinho e adotaram outro que ela recolheu da rua.
Bem, coincidiu que os dois exemplos fossem de cãezinhos. Alguém poderia perguntar, mas e as crianças? As crianças, nem precisaria ser dito, é óbvio que as crianças devem receber todo tipo de cuidados e gentilezas desde o momento em que são fecundadas. Rachel de Queiroz dizia: “E quem sabe se não há por aí muita alma fechada que, começando a se interessar pelos cachorros, acabará se apaixonando pelos homens?” (Eu acrescentaria ao lado de cachorros, os gatos também, e os patos, e as galinhas, os pássaros, etc, etc).
E não nos esqueçamos, presentear com flores será sempre um belo gesto de esprit de finesse!
Bom, gente, não sei se isso se aprende ou se é próprio da pessoa. Para mim é qualidade, é virtude natural. Se forçado, deixa de ser virtude, percebem? É como a humildade, quem pensa que é humilde, já não o é. Isto é um tesouro que Deus talvez conceda a quem não pede honrarias nem dinheiro, mas apenas a condição de poder chegar mais perto Dele para ser uma pessoa melhor.
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