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11 de jul. de 2026
EU QUERO A MINHA HORTA E O MEU FOGÃO
Uma frase simples se torna uma revelação sobre relacionamento e vida.
Por Misa Ferreira
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Foto: Misa Ferreira
Há vários dias que não escrevo, nem prosa, nem poema, nem nada, estava aqui sem inspiração e sem tema, sem lenço nem documento, apenas minha página e eu. Sei que esta angústia é passageira, todo escritor sente, até Machado de Assis que assim escreveu: “Me aflige o desfalque de assunto para a crônica da quinzena.” Se até o grande escritor passava por isso, por que não eu? Sinto-me consolada.
Como escrever também é para mim um trabalho de prazer, fiquei procurando entre minhas anotações de tesouros a serem dilapidados, algo que merecesse se transformar numa crônica, pois nada desprezo, um dia sei que nasce o texto. Foi aí que me deparei com uma frase dita por meu marido há muito tempo, algo que me encantou. Tal como um detetive que não perde a mania de farejar indícios de um possível crime, minha sensibilidade sempre foi ativada por um alarme interior, e a tal frase foi guardada na época para não se perder. Isso já faz bons anos, talvez falássemos sobre projetos para o futuro, e então ele disse: “Eu quero a minha horta e o meu fogão!”.
Esta frase, aparentemente simples, se me afigurou um enunciado grandioso, quase uma revelação ou uma epifania, uma filosofia em poucas palavras, nove para ser exata. Não foi uma mera declaração, eu sentia que havia muita profundidade naquele desejo tão singular. Fico sempre comovida com aquilo que as palavras podem causar, a linguagem é realmente maravilhosa, quem entende a linguagem entende Deus, já dizia Adelia Prado.
Bem, como num passe de mágica a horta e o fogão deixaram de ser apenas uma horta e um fogão, eram muito mais, o simbólico era por demais grandioso e o sentido ultrapassou a condição de simples palavras. A horta passou a significar o tempo de espera, de cuidados e paciência, do alimento que não é comprado, até que a vida surja generosa entre brotos e caules, assim como nosso relacionamento se cultiva diariamente trazendo frutos de respeito e doçura. O fogão no melhor recinto da casa trazendo o alimento transformado, com aromas, calor, união e a comunhão celebrada diariamente entre as vidas.
Talvez a frase de meu marido tenha saído do âmago de sua alma, tenha atravessado o tempo, épocas, idades, vidas e mundos, tenha vindo de nossos ancestrais que, exercendo sua sabedoria primitiva, cultivavam a terra com as mãos, respeitando os ritmos do tempo e do universo.
O fato foi que esta frase veio pousar em meu coração, me saciando de ternura e gratidão. Eu a acolhi com a mesma gentileza e paciência com que se espera uma semente despontar da terra, sem pressa, até chegar o tempo de mostrá-la em toda a sua dignidade e formosura.
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