•
28 de abr. de 2025
Febre Amarela e Atividades Antrópicas
Por Dra. Michelle Reboita, Pesquisadora do Centro de Ciências Atmosféricas da Unifei
Por Michelle Reboita
Compartilhar

No dia 11 de abril, o G1 noticiou o registro de 11 casos de febre amarela no sul de Minas Gerais em 2025, sendo que cinco resultaram em óbitos. Como essas ocorrências têm deixado a população alarmada é importante uma nota que apresente informações relevantes sobre esse problema.
Surgimento da febre amarela: De acordo com o Manual de Vigilância Epidemiológica de Febre Amarela (2004), a febre amarela pode ter sido introduzida nas américas através dos navios usados no tráfico de escravos. Nesses, podiam vir tanto os mosquitos infectados, quanto pessoas já portando a doença. A primeira epidemia de febre amarela urbana no Brasil ocorreu em Recife/PE, em 1685. Entre 1850 a 1899, a doença se propagou pelo país atrelada à navegação marítima e fluvial, causando epidemias do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Em 1920 foi diagnosticado o primeiro caso de febre amarela silvestre no sítio Mulungú, município de Bom Conselho do Papa Caça/PE. Note que na sentença anterior aparece a palavra silvestre, então é necessário distinguir o que é febre amarela silvestre e urbana.
Febre amarela silvestre e urbana: A febre amarela pode ser transmitida por dois ciclos distintos: o ciclo silvestre e o ciclo urbano (Figura 1). A principal diferença entre eles está no tipo de hospedeiro (animal ou humano) e no ambiente onde o vírus circula. No ciclo silvestre, o vírus circula principalmente em florestas tropicais e em áreas selvagens, onde mosquitos transmitem o vírus entre animais silvestres, como macacos e outros mamíferos selvagens. O Aedes aegypti não é o principal vetor nesse ciclo. Os mosquitos do gênero Haemagogus (principalmente Haemagogus janthinomys e Haemagogus equinus) e, em alguns casos, Sabethes são os mosquitos responsáveis pela transmissão. Como a cada dia mais o homem invade os habitats naturais, os humanos podem se infectar quando entram nessas áreas naturais e são picados pelos mosquitos infectados. No ciclo urbano, o Aedes aegypti (mosquito originário do Egito, na África, e que vem se espalhando pelas regiões tropicais e subtropicais do planeta desde o século 16, quando iniciaram-se as Grandes Navegações, IOC, s/d), é o principal vetor do vírus. O vírus é transmitido de humano para humano por meio da picada de mosquitos que se alimentam do sangue de uma pessoa infectada. Destaca-se que os mamíferos, como os macacos, não são os responsáveis pela febre amarela. Eles, assim como o homem, são infectados pela picada de mosquitos. Em consulta a Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Itajubá, obteve-se a informação de que o mosquito Sabethes, vetor do meio silvestre, já foi encontrado em Itajubá.
Figura 1 Ciclo silvestre e urbano da febre amarela. Fonte: Ministério da Saúde, 2014.
Sazonalidade: como o mosquito Aedes Aegypti é o principal vetor da febre amarela no meio urbano, as ocorrências de febre amarela são maiores no mesmo período da dengue, que são entre dezembro e maio (verão e outono), período em que os mosquitos encontram condições propícias para sua evolução.
Prevenção: A vacina é a principal ferramenta de prevenção da febre amarela. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferta a vacina e só é necessária uma dose.
Sintomas da Febre Amarela: Os sintomas podem variar de leves a graves. Os sintomas iniciais geralmente aparecem de 3 a 6 dias após a picada do mosquito infectado e podem incluir: febre alta, calafrios, dores de cabeça, dores musculares, dor nas costas, fadiga, náuseas e vômitos e perda de apetite. Já os sintomas graves são icterícia (coloração amarelada da pele e dos olhos), sangramentos (gengivas, nariz, sangue nas fezes), dificuldade respiratória, Insuficiência hepática (fígado), insuficiência renal, delírios e convulsões (em casos graves).
Tratamento: procurar atendimento médico imediatamente. O médico poderá confirmar o diagnóstico e tomar as medidas adequadas para o tratamento. Não há tratamento antiviral específico para a febre amarela, mas os cuidados médicos podem incluir: hidratação adequada, controle de febre e dor com medicamentos específicos, monitoramento de sinais de falência hepática ou renal e cuidados de suporte em casos graves (como internação hospitalar para suporte ventilatório ou transfusão sanguínea).
Aumento do número de ocorrências: O número de casos de febre amarela tem aumento em algumas regiões do Brasil, incluindo a região Sudeste, especialmente em São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Embora o Brasil tenha implementado campanhas de vacinação em massa, surtos esporádicos de febre amarela ainda ocorrem, particularmente em áreas de mata atlântica e zonas de transição para a floresta. Ocorreram surtos em áreas urbanas em 2017 e 2018, que aumentaram a preocupação com a doença nas grandes cidades.
Fatores associados com o aumento de casos de febre amarela: Diversos fatores podem contribuir para o aumento dos casos de febre amarela no Brasil:
- Fatores ambientais: O aumento da temperatura pode favorecer a proliferação de mosquitos transmissores do vírus, criando condições ideais para a transmissão. O desmatamento e a expansão de áreas urbanas para regiões de mata atlântica podem aumentar o contato entre mosquitos vetores e humanos ou primatas, favorecendo a disseminação do vírus.
- Movimentação de pessoas: deslocamento de pessoas entre áreas rurais e urbanas, especialmente trabalhadores rurais e turistas, pode contribuir para a propagação do vírus entre regiões.
- Cobertura vacinal inadequada: Em algumas áreas, a cobertura vacinal pode ser insuficiente ou irregular, o que aumenta a vulnerabilidade da população, especialmente em zonas rurais ou mais afastadas dos centros urbanos, onde a vigilância e a vacinação são mais difíceis de manter.
- Fatores socioeconômicos e sanitários: Condições sanitárias precárias em algumas regiões também favorecem a proliferação do mosquito Aedes aegypti, principal vetor da febre amarela no ciclo urbano. Além disso, as áreas com baixa infraestrutura de saúde podem enfrentar dificuldades no diagnóstico precoce e no tratamento adequado da doença.
- Mudanças climáticas: Rogers et al. (2006) e Moreira de Carvalho et al. (2020) mostram que o sudeste do Brasil é uma das regiões com maiores condições propícias à febre amarela. Em cenários de mudanças climáticas, Moreira de Carvalho et al. (2020) mostram, também para o sudeste do Brasil, que as condições propícias para a febre amarela aumentam no sul de Minas Gerais, enquanto diminuem nas demais áreas do estado. Porém, esse aumento é limitado até temperaturas de 4oC acima da média, pois valores acima desses também já não são tão favoráveis aos mosquitos, projetando declínio dos casos.
Condições em Itajubá: segundo a Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Itajubá, entre março e abril deste ano havia 54 suspeitas de casos de febre amarela, mas em 24 de abril, 39 casos já estavam descartados; os demais ainda aguardavam resultados de exames encaminhados a Belo Horizonte.
Recomendação Final: vacine-se e use repelente regularmente.
Agradecimentos: Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Itajubá
Referências
IOC (s/d). Dengue - Vírus e Vetor. Disponível em https://www.ioc.fiocruz.br/dengue/textos/longatraje.htm. Acesso em 23.04.2025
G1 (2025). Prefeitura de Maria da Fé confirma morte por febre amarela no município; Sul de MG tem 11 casos e cinco mortes. Disponível em
https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2025/04/11/prefeitura-de-maria-da-fe-confirma-morte-por-febre-amarela-no-municipio-regiao-tem-11-casos-e-cinco-mortes.ghtml. Acesso em 23.04.2025
Giovanetti, M., Pinotti, F., Zanluca, C., Fonseca, V., Nakase, T., Koishi, A. C., ... & Duarte dos Santos, C. N. (2023). Genomic epidemiology unveils the dynamics and spatial corridor behind the Yellow Fever virus outbreak in Southern Brazil. Science Advances, 9(35), eadg9204.
Manual de Vigilância Epidemiológica de Febre Amarela (2004). Brasília. Disponível em https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_vigilancia_epid_febre_amarela.pdf. Acesso em 23.04.2025
Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Guia de vigilância de epizootias em primatas não humanos e entomologia aplicada à vigilância da febre amarela / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. – 2. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2014. Disponível em https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/f/febre-amarela/publicacoes/guia_vigilancia_epizootias_primatas_entomologia.pdf/view. Acesso em 27.04.2025
Moreira de Carvalho, B., Palazzi Perez, L., Alves de Oliveira, B. F., da Silva Viana Jacobson, L., Aurélio Hortae, M., Sobral, A., & de Souza Hacon, S. (2020). Vector-borne diseases in Brazil: climate change and future global warming scenarios. Sustainability in Debate/Sustentabilidade em Debate, 11(3).
Rogers, D. J., Wilson, A. J., Hay, S. I., & Graham, A. J. (2006). The global distribution of yellow fever and dengue. Advances in parasitology, 62, 181-220.
Por Dra. Michelle Reboita, Pesquisadora do Centro de Ciências Atmosféricas da Unifei
Compartilhar
Gostou do conteúdo?
Participe dos nossos grupos e receba notícias, eventos e ofertas exclusivas direto no seu WhatsApp
Guia Comercial
Ver todos →Participe dos Nossos Grupos
Receba conteúdo exclusivo e fique por dentro de tudo que acontece em Itajubá