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19 de ago. de 2026
MELANCOLIA, PRÁ NÃO DIZER DECEPÇÃO
A autora relembra a resistência durante a ditadura, a missão médica e lamenta a perda de valores diante da polarização e do materialismo atual.
Por Dra. Graça Mota Figueiredo
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Foto: Graça Mota
Acho que eu ando numa vibe meio que revolucionária e um tanto saudosista.
E a internet, que nos conhece mais do que nós mesmos nos conhecemos, não para de me sugerir filmes, canções e até mesmo recordações de tempos de terror no mundo, que o mundo é cheio deles.
Eu era adolescente quando o país mergulhou no inferno que foi a ditadura militar. Já tinha idade e discernimento para perceber o valor da liberdade individual e social, e o horror da censura à autonomia.
Estou sendo gentil ao falar apenas de ausência de liberdade: o que se viu, mesmo, foram tortura, morte às escondidas em porões infectos, crueldade elevada à categoria de tática de interrogatório. Pais que desapareciam, filhos que nem sequer puderam ser enterrados, mães que até hoje choram os seus desaparecidos...
O ódio, a perseguição voraz, o terror, todos instrumentos de silêncio que poucos ousaram questionar. Quem o fez, conhecemos o destino.
Dois anos depois, eu era universitária. Medicina era um curso que nos mostrava diariamente a ausência de justiça social no Brasil: ignorância, fome, doenças evitáveis, essa era a nossa rotina. Nossos professores, embora membros da elite social como muitos de nós, ainda viam a medicina como missão.
Como não sermos revolucionários, então?
Nós ainda acreditávamos no poder da luta por melhores condições de vida para os menos favorecidos; e mais: nós éramos parte dessa batalha!
Hoje, é com imensa decepção e tristeza que vejo muitos dos meus colegas de turma se orgulhando apenas do seu nome, da sua fama e da sua prosperidade.
Quando me vejo, hoje, mergulhada numa polarização extrema entre direita e esquerda (mesmo que a maioria de nós não saiba com clareza o que significam estes termos) que alguns ingênuos supõem que ocorre apenas na política, me pergunto que destino tiveram os nossos valores de jovens.
O mundo hoje tende, como um animal cego, a cultuar valores materiais, o poder, o dinheiro sem limites, os excessos em todas as áreas da vida.
O que houve conosco? Onde deixamos escondidos os nossos valores mais elevados? O que buscamos, com essa sede insaciável de prazeres?
Tenho medo pela humanidade...
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