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19 de set. de 2026
O SONO MILENAR DE UMA ROSA
Depois de cinquenta anos, a narradora abre o poema “A queixa da rosa” escrito por seu tio monge e descobre que a obra era um tesouro de amor que reconhecia sua própria beleza.
Por Misa Ferreira
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Foto: Misa Ferreira
Há presentes que só podem ser abertos muito tempo depois. Pois assim foi. Eu era uma jovem ferida e solitária, e além dos muitos espinhos que atormentavam meu coração, eu ainda sofria porque meu tio, monge e poeta, já havia escrito e dedicado muitos poemas para os sobrinhos e nunca para mim, que esperava, em vão, ser reconhecida pelo meu tio. Eu me queixei com ele e algum tempo depois recebi um poema, o meu poema! Curiosa, eu abri e li: A queixa da rosa! Não entendi o título, nem o poema. Decepcionada, constatei que nada naquele poema falava de mim. Contudo, numa sábia intuição eu guardei a folha datilografada e parti para minha vida. Só cinquenta anos mais tarde eu abri este poema e, perplexa, descobri que estava de posse de um raro tesouro. Eu compreendi o sublime gesto de amor de meu tio. Ainda assim, mesmo sabendo que era um tesouro, era difícil para mim mensurar o valor daquela preciosidade porque a revelação era por demais grandiosa. Só aos poucos fui deixando o encantamento me tomar por inteira até finalmente compreender que aquele era o poema mais belo de todos os tempos e foi feito para mim.
Confrontada pela revelação de que eu era uma rosa, senti uma imensa gratidão para com meu tio, que tendo já partido, foi claramente a primeira pessoa que viu em mim uma beleza que eu ainda não era capaz de reconhecer. Gostaria que meu poeta pudesse saber que finalmente eu descobri o tesouro. Imagino que ele iria abrir um sorriso e dizer apenas: “Então ela compreendeu!”
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