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28 de jan. de 2026
PROCURA-SE LATERAL NO FUTEBOL BRASILEIRO
Dizer que a posição de lateral vai acabar pode parecer alarmismo, mas a função clássica já está em seus últimos dias.
Por Guilherme Mereu
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O futebol brasileiro sempre teve o lateral como um símbolo de criatividade e vigor. De Nilton Santos a Carlos Alberto Torres, passando por Cafu e Roberto Carlos, a posição era o motor de um estilo de jogo que unia segurança defensiva e explosão ofensiva. No entanto, o cenário atual aponta para uma crise de identidade: os laterais "puros" estão desaparecendo e a posição caminha para uma transformação tão radical que beira a extinção em seu formato clássico.
Se observarmos em um cenário mais amplo, a escassez de grandes laterais não é apenas uma "falta de talento" geracional, mas sim o resultado de uma mudança no DNA tático do jogo. Antigamente, o lateral era o dono do corredor; ele era o responsável “apenas” por cruzar e, simultaneamente, por marcar o ponta adversário. Hoje, com o advento do jogo posicional e das transições rápidas, o lateral “maratonista” cedeu lugar à versatilidade tática, onde treinadores optam por escalar zagueiros na posição (obtendo maior sustentação defensiva), ou na maioria das vezes, colocando jogadores um pouco mais avançados (alas), para que estes atuem na construção do jogo dando suporte aos meio campistas. O foco passa a ser agora controlar mais o centro do campo oportunizando um maior repertório de possibilidades no ataque.
Além do aspecto tático, o cenário econômico-financeiro dos clubes faz com que a base não forme mais laterais. Hoje, se um jovem tem velocidade e drible, os treinadores e empresários o empurram para a ponta, onde o valor de mercado é exponencialmente maior. Se ele tem boa visão de jogo e passe, é deslocado para o meio-campo.
Logo, o resultado é um vácuo técnico, pois o jogador que sobra na lateral muitas vezes não possui o refinamento para criar ou auxiliar na construção, nem a imposição física para suportar a demanda transicional defesa-ataque, gerando a sensação de que o nível da posição despencou.
Dizer que a posição de lateral vai acabar pode parecer alarmismo, mas a função clássica já está em seus últimos dias. Num futuro próximo, devemos começar a observar formações partindo de uma base de 3 zagueiros e com as beiradas do campo sendo ocupadas por jogadores de fôlego e drible.
Tal fim é o preço que pagamos na busca incessante pelo controle total do meio-campo e da superioridade numérica na articulação. Resta saber se o futebol perderá o seu charme de "beira de campo" em troca de uma eficiência matemática no centro do tabuleiro.
Por Guilherme Mereu
Treinador da equipe feminina do Yuracan
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