E começa mal…

Aqui, bem do nosso lado, numa região definida como faixa de paz (América do Sul e Caribe), o mundo acorda com mais uma violência em curso.
Venezuela é uma ditadura? É claro, todos nós sabemos disso e lamentamos. Venezuelanos deixaram a pátria, expulsos pelo regime do Maduro? Também lamentamos por isso.
Mas a forma como se deu a “libertação” do país é, pra dizer o mínimo, imoral e criminosa.
Imagino que este fato e esta data se tornem marcos da destruição inexorável do direito internacional e das leis de soberania, e um retorno lamentável a uma das piores manchas da humanidade: o colonialismo.
A invasão americana e o sequestro do presidente da Venezuela não podem ter qualquer justificativa perante a ONU e a todos os demais países livres do mundo.
É bem verdade que, frente às atrocidades cometidas pelo homem contra os seus semelhantes, o mundo se encolhe e se cala, conivente. A lembrança do nazismo ainda não se apagou da memória e da alma dos judeus, dos ciganos, dos dissidentes do fascismo alemão.
Exemplos mais atuais ainda não faltam; é preciso recordar a Ucrânia, a Palestina?
Não é preciso nenhuma ideologia política. Nem direita nem esquerda e nem centro precisam ser evocados. Não se trata nem mesmo de normas internacionais de direito à soberania, de respeito à auto-gerência dos países e nem de não interferência, princípios que a cultura moderna (ao menos a ocidental) prega como evolução da consciência universal.
Trata-se apenas da mais simplória das constatações: quando foi que um país libertado da opressão pela força ditatorial de outro mais rico e mais poderoso voltou à paz comunitária e ao direito individual como consequência da “libertação”?
Se essa não fosse mais uma situação extremamente perigosa e delicada, eu terminaria essa coluna lembrando aos mais velhos, como eu, de um quadro humorístico do passado: uma moça loira, linda e curvilínea, contava toda semana que tinha sido objeto da extrema gentileza de todos os homens à sua volta que, por exemplo, a ajudavam a subir uma escada. E ela, com uma vozinha meiga e um sotaque estrangeiro, dizia: “brasileiro bonzinho!”
Passei o dia inteiro de hoje, infelizmente, lendo gente que dizia: “americano bonzinho!”
Por Graça Mota Figueiredo
Professora Adjunta de Tanatologia e Cuidados Paliativos
Faculdade de Medicina de Itajubá – MG