
Ontem assisti ao filme “Pássaro branco” com a famosa Helen Mirren, que dizem que se parece comigo, ou melhor, que eu me pareço com ela, o que me deixa envaidecida, é óbvio, não por sua indiscutível beleza, quero dizer, sei que não sou bonita como ela, talvez algum traço, um jeito de olhar, de sorrir, um pouco do seu charme, eu querendo ser humilde, mas não sendo.
Enfim, vamos ao filme. É uma linda história de bondade e amor que se passa em um vilarejo francês ocupado pelos nazistas na Segunda Guerra. Minha geração não acompanhou essa triste época, mas minha mãe acompanhou tudo com o ouvido colado no rádio em sua casa, na pacata cidadezinha de Cristina, onde ela passou sua mocidade. Enquanto fazia suas costuras, ela permanecia atenta e esperançosa de que a guerra logo tivesse um fim. Ela nos contava emocionada quando aconteceu o “Dia D”, chorou copiosamente acompanhando o desembarque das Tropas Aliadas dos EUA, Reino Unido e Canadá nas praias da Normandia, França. Essa operação foi determinante para o término da Segunda Guerra Mundial que aconteceria um ano e pouco depois. O mundo acompanhava o desenrolar da guerra e minha mãe também.
Minha mãe morava em Cristina, na rua “De Baixo”, segundo ela, e da qual nunca chegamos a saber o nome, mas a rua conhecemos bem. Afinal, consta do poema de meu tio padre: “Cristina pequenina! Cristina do jardim de árvores (árvores que tocavam o céu!) Cristina das casas bem junto à calçada, as crianças brincando na enxurrada! Cristina do coreto e do leão, Cristina da rua-de-baixo e rua-de-cima, da rua direita e rua da estação!”
A guerra estava bem longe de Cristina, que acordava com os galos cantando, com o badalar do sino da igreja que chamava os fiéis para a missa, com a prosa das alegres comadres por cima dos muros, com o som das carroças puxadas por cavalos, por tudo o que uma cidadezinha daquela época bem conhecia. Ninguém acompanhava os movimentos da guerra, pelo menos as mulheres não, poucas conversavam sobre isso. Já minha mãe, que era uma mulher “sui generis”, além de seu tempo, sabia dar as notícias “ipsis litteris” (como hoje estou gastando meu latim!) para meu avô e eles conversavam à noite, à mesa da cozinha, sob o crepitar das chamas do fogão à lenha.
Minha mãe contava que observava a paz e união que reinavam em Cristina, apesar das muitas dificuldades financeiras, mas todos os vizinhos eram bons e se ajudavam e eram felizes. Ela sofria por pensar nas famílias martirizadas no Holocausto, famílias que foram separadas pela guerra, pensava nas crianças, nos pais que nunca mais viram os filhos. E pensava com horror se alguma vez a guerra, qualquer guerra pudesse chegar à Cristina e tirar o que havia de mais precioso na cidade: a paz.
O mais próximo de uma guerra ou invasão à Cristina, ela nos contava, foi quando chegou à cidade o boato de que Lampião e seus cangaceiros estavam descendo pelo país abaixo e poderiam chegar à Cristina e sabe-se lá o que poderiam fazer de maldade com as famílias. Aquilo foi o terror das mulheres e mães que estudavam estratégias para se esconderem com as crianças em algum local seguro. Felizmente Lampião ficou onde estava. E felizmente Cristina não foi à guerra.
Misa Ferreira é autora dos livros: Demência: o resgate da ternura, Santas Mentiras, Dois anjos e uma menina, Estranho espelho e outros contos, Asas por um dia, Na casa de minha avó e Ópera da Galinhinha: Mariquinha quer cantar. Graduada em Letras e pós graduada em Literatura. Premiada várias vezes em seus contos e crônicas. Embaixadora da Esperança (Ambassadors of Hope) com sede em Calcutá na Índia. A única escritora/embaixadora do Brasil a integrar o Projeto Wallowbooks. Desde 2009 Misa é articulista do Conexão Itajubá, enviando crônicas e poemas. Também contribui para o jornal “O Centenário” de Pedralva.