
Hoje presenciei um fato que mexeu comigo. Eu saía meio apressada da minha garagem e felizmente consegui um lugar na fila de carros que iam em direção ao centro. Logo estranhei que a fila não andava. Como todos os outros motoristas, também arqueei minha cabeça para poder ver o que ocorria. Nada de excepcional, apenas aquela famosa cena quando um infeliz motorista percebe que seu carro morreu. Assim eu deduzia e de fato, logo o homem saía do carro e tentava controlar o volante no intuito de levar o carro para fora da fila, dando passagem para os outros veículos. O que me chamou a atenção foi que ninguém saía de carro nenhum para ajudar o homem. Normalmente quando acontece isso dois ou três sujeitos já saem de seus carros para ajudar a empurrar. Eu não poderia ir lá tendo em vista minha frágil compleição nada apta para empurrar um carro. No entanto, senti-me aflita com a situação. Refleti: o que está acontecendo com a humanidade? Chegamos a este ponto de indiferença? Até que enfim um sujeito mais à frente saiu de seu carro para ir até lá, mas voltou logo porque alguém já tinha se prontificado. Graças a Deus! Duas pessoas se apresentaram! Que alívio! A humanidade ainda respira solidariedade. É evidente que neste caso as pessoas ajudam porque se não ajudarem, ninguém sai do lugar. Não importa. Algum pálido desejo de ser útil ainda pulsa nos corações. Isso é imanente à natureza humana, é da essência do homem.
É verdade que o ato de sair do próprio carro para empurrar outro não configura nenhum feito histórico grandioso e heroico, não. Foi algo simples, tão simples que as pessoas que assistiram à cena presente e mesmo as que ajudaram, voltaram para suas casas e não discutiram o fato corriqueiro com ninguém da família, talvez apenas o motorista em questão tivesse somente dito à mulher, o carro morreu de novo, vou ter que trocar a bateria. Pronto. Não era caso para tanto drama de minha parte. Mas o fato é que sou dramática, e quando vi que o pobre motorista finalmente recebia uma ajuda, subitamente fui invadida por um cálido sentimento de gratidão, até mesmo de júbilo por assistir àquela cena que me emocionou. Exagerada? Sempre fui. Pois me senti feliz sobremaneira, palavra esta que adoro usar. Ganhei minha tarde, ganhei meu dia!
A humanidade, por mais estranha e caótica que seja e esteja, ainda tem salvação, mesmo que a grande maioria não se importe mais com nada nem ninguém. Vamos ajuntando os generosos gatos pingados de boa vontade até formar um exército do bem. Afinal, não nos esqueçamos que Deus prometera a Abraão que pouparia Sodoma se lá houvessem dez justos, mas nem isso encontrou, apenas Lot, sua mulher e suas duas filhas foram salvas, mas a mulher de Lot, curiosa que era, havendo desobedecido às orientações dos anjos para não olhar para trás, foi transformada numa coluna de sal. O que eu quero mesmo dizer é que o mundo pode ser salvo por poucas pessoas simples e comuns como nós, basta um pequeno gesto, como empurrar um carro, pagar um lanche para quem pede com fome, não desviar os olhos de ninguém.
Que estejamos nós sempre disponíveis e vigilantes aprendendo com os justos para que quando vier o Senhor, não nos encontre dormindo, como se reza na oração de São Gabriel Arcanjo.
Misa Ferreira é autora dos livros: Demência: o resgate da ternura, Santas Mentiras, Dois anjos e uma menina, Estranho espelho e outros contos, Asas por um dia, Na casa de minha avó e Ópera da Galinhinha: Mariquinha quer cantar. Graduada em Letras e pós graduada em Literatura. Premiada várias vezes em seus contos e crônicas. Embaixadora da Esperança (Ambassadors of Hope) com sede em Calcutá na Índia. A única escritora/embaixadora do Brasil a integrar o Projeto Wallowbooks. Desde 2009 Misa é articulista do Conexão Itajubá, enviando crônicas e poemas. Também contribui para o jornal “O Centenário” de Pedralva.