1 Análise Global
No dia 08 de janeiro de 2026, o Copernicus, um grande centro de meteorologia europeu, divulgou o relatório do estado do clima em 2025, destacando que:
“2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado, apenas ligeiramente (0,01°C) mais frio do que 2023 e 0,13°C mais frio do que 2024 — o ano mais quente já registrado. Os últimos 11 anos foram os 11 mais quentes da série histórica. As temperaturas globais dos últimos três anos (2023–2025) tiveram, em média, mais de 1,5°C acima do nível pré-industrial (1850–1900). Esta é a primeira vez que um período de três anos ultrapassa o limite de 1,5°C. A temperatura do ar sobre as áreas terrestres globais foi a segunda mais alta, enquanto a Antártida registrou a sua temperatura média anual mais alta e o Ártico a sua segunda mais alta.” (tradução livre de Copernicus, 2026).
A Figura 1 mostra a diferença da média global da temperatura em relação ao período 1850-1900. Note que há uma tendência positiva no aumento das diferenças (também chamadas de anomalias), o que significa aquecimento do planeta. O ano de 2025 foi 1,47°C mais quente do que o período pré-industrial. Já a Figura 2 faz uma comparação das diferenças mensais, ressaltando os últimos três anos. O mês de janeiro de 2025 foi o mais quente (1,75°C) comparados aos demais janeiros do período histórico. Porém, as demais diferenças mensais de 2025, no segundo semestre, foram menores apenas do que as de 2023 e 2024.

Figura 1 Anomalia da temperatura do ar média global (oC) em relação ao período pré-industrial (1850-1900). Fonte: Copernicus – https://climate.copernicus.eu/copernicus-2025-was-third-hottest-year-record.

Figura 2 Anomalia mensal da temperatura do ar média global (oC) em relação ao período pré-industrial (1850-1900). Fonte: CarbonBrief – https://www.carbonbrief.org/state-of-the-climate-2025-in-top-three-hottest-years-on-record-as-ocean-heat-surges/
De acordo com o relatório do Copernicus (2026), os últimos três anos (2023–2025) foram excepcionalmente quentes por duas razões principais: (1) acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera, devido às emissões contínuas e a menor absorção de dióxido de carbono por sumidouros naturais e (2) temperaturas da superfície do mar excepcionalmente elevadas em grande parte dos oceanos, associadas à variabilidade natural oceânica e amplificadas pelas mudanças climáticas. Com relação ao (1), a Figura 3 mostra a série temporal de dados de dióxido de carbono medidos numa ilha no meio do oceano Pacífico. O aumento da concentração de dióxido de carbono é crescente mês a mês. Se o leitor tiver curiosidade, pode visitar mensalmente o sítio https://gml.noaa.gov/ccgg/trends/ e comparar os valores mensais das medidas.

Figura 3 Concentração de dióxido de carbono em partes por milhão (ppm) na atmosfera medidos em Mauna Loa. Fonte: NOAA – https://gml.noaa.gov/ccgg/trends/
O relatório de 2025 do Copernicus (2026), assim como o dos anos anteriores, bem como a Organização Meteorológica Mundial (WMO, 2026) e CarfonBrief (2026) mostram que estamos vivendo um período crítico em termos de alterações no sistema climático. De acordo com essas referências, os destaques em 2025 são:
Gases de efeito estufa: a NOAA (2026), uma agência americana, monitora a concentração de alguns gases de efeito estufa na atmosfera. O dióxido de carbono (CO2), que no início do período pré-industrial tinha concentrações de cerca de 280 partes por milhão (ppm), em dezembro de 2025 atingiu o recorde de 427,49 ppm (Figura 3). O metano (CH4) também atingiu recorde, 1940,59 partes por bilhão, ppb, (medida de setembro de 2025).
Temperatura da superfície do mar (TSM): a TSM, calculada entre 60°S e 60°N, manteve-se elevada ao longo de 2025. A média anual de 2025 foi de 20,73°C, 0,38°C acima da média de 1991–2020; a terceira mais alta já registrada, ficando 0,13°C abaixo do recorde estabelecido em 2024 e 0,07°C abaixo de 2023, o segundo ano mais alto. Mesmo ocorrendo um evento La Niña em 2025, as TSMs foram positivamente anômalas.
Gelo marinho: no Ártico, a extensão do gelo marinho atingiu o menor valor de inverno já observado, bem como a 10ª menor extensão mínima no verão, enquanto o gelo marinho da Antártica registrou a terceira menor extensão mínima (Figura 4).

Figura 4 Ciclo anual da extensão de gelo marinho em 2025 comparado com a média 1991-2020 na Antártica (azul claro) e Ártico (azul escuro). Fonte: Copernicus (2026).
Eventos extremos no Brasil: foram vários casos de eventos extremos de tempo registrados no Brasil no ano de 2025. Aqui se destacam apenas alguns. No dia 07 de novembro de 2025, três tornados destruíram a cidade de Rio Bonito do Iguaçu e causaram seis mortes (Agência Brasil, 2025). Entre os dias 8 e 9 de dezembro de 2025, o sul do Brasil foi afetado por um ciclone extratropical que causou chuvas acima de 100 mm e rajadas de vento chegando a 94 km/h (INMET, 2025). Em 23 de novembro de 2025, a cidade de Erechim (RS) foi afetada por uma tempestade severa. Relatos técnicos e jornalísticos apontaram granizo, com menções a pedras comparáveis a “ovos” e danos a telhados/vidros.
Qual a nossa situação e o que se espera para 2026?
O ano de 2025 foi 1,47°C mais quente do que o período pré-industrial, isso é um valor próximo ao limite de 1,5°C, indicado pelo Acordo de Paris, como nível em que não podemos ultrapassar em vista aos processos irreversíveis que podem ocorrer no sistema climático. Vou exemplificar um caso simples: se o gelo dos polos se tornar água, não temos condições de transformar o líquido em gelo, um efeito imediato será o aumento do nível médio do mar e o desaparecimento de zonas costeiras e ilhas, mas não é só isso, há outros efeitos em cadeia no sistema climático que serão catastróficos.
O Copernicus (2026) ressalta que um ou dois anos com as temperaturas globais acima de 1,5°C não significa que o primeiro nível do Acordo de Paris tenha sido ultrapassado. No entanto, pela primeira vez, a média dos últimos três anos está acima de 1,5°C segundo a reanálise ERA5, o que destaca que o mundo está se aproximando desse nível.
Para 2026, a previsão do Met Office (2025), instituição do Reino Unido, indica que a temperatura média global deve ficar em torno de 1,46°C acima da média de 1850–1900 (pré-industrial), com uma faixa de incerteza de aproximadamente 1,34°C a 1,58°C. Isso significaria que 2026 seria o quarto ano consecutivo acima de 1,4°C, e provavelmente mais frio que 2024, mas próximo de 2023 e 2025.
O que está acontecendo nos primeiros dias do ano de 2026?
Entre os últimos dias de dezembro e os primeiros dias de 2026, incêndios florestais na Patagônia Argentina devastaram mais de 8 mil hectares de florestas, pastagens, plantações e casas na região, inclusive dentro de Parques Nacionais (COLABORA, 2026). Os incêndios voltaram a ocorrer e, dessa vez, no centro-sul do Chile. Nessa região, os incêndios iniciaram no dia 17 de janeiro. No dia 21, havia o registro de 20 óbitos. Os incêndios provocaram a evacuação de 50 mil pessoas e destruíram mais de 7 mil imóveis nas regiões de Ñuble e Biobío, no centro-sul do país (COLABORA, 2026). Os incêndios florestais são comuns no Chile durante o verão devido às altas temperaturas e a baixa umidade. Entretanto, o aquecimento global está causando verões mais quentes e ondas de calor mais severas. Esse último incêndio está relacionado com as ondas de calor e condições secas que têm dominado o sul do continente desde o início do ano. Além disso, os ventos fortes, típicos da região, ajudam na propagação do fogo. Quando se fala em altas temperaturas não significa que são elas que iniciam os incêndios, elas deixam o ambiente mais favorável a esses eventos. O COLABORA (2026) menciona que o Centro de Estudos sobre Clima e Resiliência, no Chile, possui dados que indicam que mais de 93% dos incêndios estão diretamente ligados à atividade humana. Desse percentual, 55% são causados por negligência e 38% são intencionais.
Na Ásia, o deslocamento do ar do Ártico para a Rússia, China e Japão fez as temperaturas declinarem. O volume de 2 metros de altura de neve no setor oriente da Rússia, no dia 21 de janeiro, aparece como o caso mais extremo dos últimos 60 anos (Reuters, 2026). A situação meteorológica associada com esse episódio é o enfraquecimento do vórtice polar Ártico. Esse vórtice, que confina ar muito frio sobre o Ártico, quando enfraquece, também faz com que a corrente de jato em altos níveis enfraqueça ficando ondulada. Essas ondulações permitem que porções de ar frio do Ártico avancem mais para o sul, provocando incursões repetidas de ar mais frio.
No Brasil, as chuvas ocorridas em janeiro ainda estão abaixo do valor médio esperado no período. Isso é mostrado através da Figura 5, que se trata da diferença entre o que choveu de 1 a 20 de janeiro e a climatologia do período. Nesse panorama, o sul de Minas Gerais também encontra-se com menos precipitação do que o esperado. Essa situação do país tem afetado o nível dos reservatórios.

Figura 5 Diferença entre o que choveu (mm) de 1 a 20 de janeiro e a climatologia do período. Fonte: CPTEC/INPE.
2 Análise para Itajubá
Essa seção é iniciada com uma descrição geral do clima em 2025, que é seguida do monitoramento hidrológico comparativo entre janeiro de 2025 e 2026.
Características Gerais de 2025
As médias mensais da temperatura do ar no ano de 2025 em Itajubá estiveram muito próximas do valor climatológico, embora entre janeiro e março e dezembro tenham excedido o valor médio (Figura 6). Já a precipitação foi abaixo do acumulado esperado, exceto no mês de abril de 2025, que excedeu o valor climatológico. No ano de 2025, choveu 778 mm, o que é 53% do valor total esperado (Figura 6).

Figura 6 Comparação entre as médias mensais dos anos de 2024 e 2025 com a climatologia para a temperatura média (oC) em linhas e precipitação acumulada (mm) em barras.Fonte: Estação meteorológica da UNIFEI.
Monitoramento Hidrológico – Análise Comparativa (janeiro de 2025 e 2026)
O mês de janeiro de 2026 em Itajubá/MG tem apresentado precipitações abaixo do observado no mesmo período do ano anterior. Em janeiro de 2025, a Estação de Monitoramento da Asthon Tecnologia (localizada na Av. BPS e operada sob contrato com a Prefeitura Municipal) registrou um acumulado de 220,9 mm, conforme apresentado na Figura 7.

Figura 7 Gráfico de precipitação na Estação localizada na Av. BPS no período de 01.01.2025 a 00h00 a 31.01.2025 às 23h59. Precipitação instantânea (barras na cor azul claro) e precipitação acumulada (linha na cor verde). Fonte: Software Asthon Tecnologia (2026).
Nesse período, o nível do Ribeirão Zé Pereira acompanhou os altos valores pluviométricos, culminando no transbordamento registrado em 30/01/2025, quando atingiu a marca de 2,12 m de coluna d’água (Figura 8).

Figura 8 Gráfico de nível do Ribeirão Zé Pereira na Estação localizada na Av. BPS no período de 01.01.2026 a 00h00 a 31.01.2025 às 23h59. Fonte: Software Asthon Tecnologia (2026).
Em contrapartida, no mês corrente (até 21/01/2026), o acumulado de precipitação é de 154,5 mm (Figura 9).

Figura 9 Gráfico de precipitação na Estação localizada na Av. BPS no período de 01.01.2026 a 00h00 a 21.01.2026 às 18h18. Precipitação instantânea (barras na cor azul claro) e precipitação acumulada (linha na cor verde). Fonte: Software Asthon Tecnologia (2026).
Com esse menor volume pluviométrico em 2026, o Ribeirão Zé Pereira não atingiu a cota de transbordamento, registrando nível máximo de 1,08 m (Figura 10). Assim, os dados monitorados tanto na estação em questão como nas demais instaladas no município, evidenciam que o volume de chuvas neste início de 2026 é consideravelmente menor do que o registrado no mesmo período de 2025, resultando em níveis baixos nos rios e ribeirões.

Figura 10 Gráfico de nível do Ribeirão Zé Pereira na Estação localizada na Av. BPS no período de 01.01.2026 a 00h00 a 21.01.2025 às 118h18. Fonte: Software Asthon Tecnologia (2026).
A análise de eventos hidrológicos recentes é fundamental para compreender o comportamento da Bacia do Rio Sapucaí, na qual Itajubá está inserida, e seus reflexos na drenagem urbana, evidenciando como precipitações intensas nas cabeceiras impactam diretamente o município.
Um exemplo claro foi a tempestade registrada em Campos do Jordão/SP (região de nascente) no dia 13/01/2026, por volta das 17h30. A água que viajou pelos rios chegou em Itajubá na madrugada seguinte: o primeiro pico de nível foi detectado na Estação Borges (Bairro dos Borges) às 02h05 do dia 14/01, atingindo a marca de 0,97m. Isso representa um tempo de resposta de aproximadamente 8h30 após a chuva na cabeceira.
A onda de cheia seguiu seu curso pelo rio, atingindo a Passarela José Miguel às 05h25 (0,72m) e chegando posteriormente à Estação FEPI (região urbana), que registrou 0,35m às 10h40 com tendência de subida (Figura 11).

Figura 11 Gráfico comparativo dos níveis entre as Estações de Monitoramento ao longo do Rio Sapucaí. Fonte: Asthon Tecnologia (2026).
Apesar do grande volume de chuva em Campos do Jordão, em Itajubá não foi atingido nenhum dos níveis de alerta, uma vez que o Rio Sapucaí se encontrava em um nível muito abaixo da média ao longo dos últimos dias.
Outro evento que vale o destaque ocorreu no dia 15 de janeiro de 2026, na Rua Augusto de Almeida (Jardim das Colinas). A Estação de monitoramento instalada nesta rua registrou ocorrências de alagamento que chamam a atenção pela rapidez da resposta hidrológica. Pela análise dos dados, nota-se que os acumulados de precipitação não foram extremamente elevados, registrando apenas 15,5 mm no primeiro evento (início da tarde, 12h17 até 12h45), como mostra a Figura 12, e 16,5 mm no segundo evento (final da tarde, 16h39 até 18h34), como mostra a Figura 13. Contudo, esses volumes foram suficientes para causar o alagamento na via, como mostram os gráficos das Figuras 14 e 15.

Figura 12 Gráfico de precipitação na Estação localizada na Rua Augusto de Almeida (Jd das Colinas) no período de 12h17 até 12h45. Precipitação instantânea (barras na cor azul claro) e precipitação acumulada (linha na cor verde).

Figura 13 Gráfico de precipitação na Estação localizada na Rua Augusto de Almeida (Jd das Colinas) no período de 16h39 até 18h34. Precipitação instantânea (barras na cor azul claro) e precipitação acumulada (linha na cor verde).

Figura 14 Gráfico de nível da Rua Augusto de Almeida (Jd das Colinas) no período de no período de 11h30 até 14h30. Fonte: Software Asthon Tecnologia (2026).

Figura 15 Gráfico de nível da Rua Augusto de Almeida (Jd das Colinas) no período de no período de 16h30 até 20h00. Fonte: Software Asthon Tecnologia (2026).
A resposta hidrológica na Rua Augusto de Almeida mostrou-se extremamente rápida em ambos os episódios registrados no dia 15/01. No primeiro evento, a subida do nível iniciou-se às 12h20, atingindo o pico rapidamente às 12h47. A verificação em campo identificou que a via já se encontrava alagada antes mesmo dos níveis de alerta originais serem atingidos (linha pontilhada amarela e laranja no gráfico), o que fundamentou o ajuste das cotas de alerta para garantir maior exatidão no momento do acionamento dos alertas.
Já no segundo evento, iniciado com precipitação às 16h39, a evolução foi ainda mais crítica quanto ao tempo de reação: o alerta de “Observação” foi emitido às 17h16 e, apenas cinco minutos depois, às 17h21, o sistema disparou o nível de “Atenção”, confirmando o alagamento e a necessidade de evitar o trânsito no local.
Embora a atuação da Defesa Civil e a emissão dos avisos via WhatsApp tenham sido rápidos e assertivos, a dinâmica desses eventos acende um sinal de alerta sobre a infraestrutura urbana. O fato de volumes pluviométricos moderados provocarem alagamentos tão repentinos sugere obstruções no escoamento, muitas vezes agravadas pelo acúmulo de resíduos urbanos.
Portanto, para mitigar esse cenário, torna-se indispensável a conscientização da população: o descarte correto do lixo e a manutenção da limpeza dos bueiros são ações fundamentais. Evitar que materiais sólidos obstruam os bueiros é crucial para garantir a eficiência da drenagem urbana e reduzir a frequência desses alagamentos que impactam a comunidade.
Referências
Agência Brasil. 2025. Tornado destrói 90% de Rio Bonito do Iguaçu (PR) e causa seis mortes. Disponível em:
Copernicus. 2026. 2025 Global Climate Highlights. Disponível em: https://climate.copernicus.eu/sites/default/files/custom-uploads/GCH-2025/GCH2025-full-report.pdf
INMET. 2025. Ciclone Extratropical provoca grandes volumes de chuva e rajadas de vento no Sul e Sudeste. Disponível em:
MetOffice. 2026. 2026 outlook: likely another year above 1.4°C. Disponível em:
NOAA. 2025. Global Monitoring Laboratory. Disponível em: https://gml.noaa.gov/ccgg/trends/
Reuters. 2026. Russia’s Far East buried in snow, transport disrupted in China and Japan. Disponível em:
WMO. 2026. State of the Climate Update for COP30. Disponível em: https://wmo.int/sites/default/files/2025-11/State%20of%20the%20Climate%202025%20Update%20COP30%20%2831%20oct%29.pdf
Autoras: Michelle Reboita e vitória Jacomelli Baratella