Se você “curte” alguma coisa, isso significa que você se importa com ela?
É uma distinção importante numa era em que você enriquece socialmente no Facebook ou Twitter simplesmente pressionando o botão “curtir” ou o “favorito”.
Estes “referendos” na web muitas vezes parecem mais um tipo de pichação digital coletiva do que uma estimativa do engajamento das pessoas: “Eu vi isto, me chamou a atenção no mínimo por um segundo e aqui está a minha marca para provar”.
Mas é mais complicado quando os assuntos são mais complicados. Pressionar o botão “favorito” no primeiro episódio de Mad Men é um gesto totalmente diferente do que expressar a solidariedade digital a crianças sequestradas na África. Mas no teclado tudo parece igual.
Na atmosfera livre de atritos da internet, não custa mais do que um pequeno movimento do mouse para registrar a preocupação com as vítimas de conflitos em lugares distantes. Certamente algumas pessoas estão abraçando as causas que chegam da web, mas outras muito provavelmente não vão fazer mais do que lustrar seus avatares digitais.
Em fevereiro, a comunidade online ficou maluca depois que a fundação Susan G. Komen for the Cure (abreviada como #Komen no Twitter) anunciou um corte do financiamento para a clínica de reprodução assistida Planned Parenthood. E depois #KONY2012 começou a pipocar no meu feed do Twitter e, junto com outros 100 milhões, assisti a um vídeo sobre o criminoso de guerra de Uganda, Joseph Kony.
Depois de semanas fora do radar, #TrayvonMartin voltou à tona também, e muitos sugeriram que as pessoas que ficaram tão frenéticas com a perseguição dos jovens negros em outro continente precisavam olhar mais para seu próprio país, para a morte de um adolescente negro desarmado na Flórida.
Como jornalista, não costumo aderir a várias causas, mas como alguém que vive no mundo da mídia social – muito mais do que deveria – , tenho sentido a atração do ativismo digital. E devo admitir que estou começando a ficar um tanto cansado dessas adesões digitais a uma causa. Todas, sejam do dia ou da semana, estão começando a se tornar a mesma coisa. Outra semana chegou uma outra hashtag e com ela uma pergunta sobre o que as pessoas estavam realmente atingindo com isso.
Em março comecei a refletir profundamente sobre o poder e os limites do ativismo digital quando estive em Moscou durante a eleição presidencial na Rússia. Passei a noite da eleição ao lado de Aleksei Navalny, blogueiro russo que se tornou uma espécie de líder na campanha pela mídia social contra o atual governo. Naquela noite, equipes de TV de todo mundo giravam em torno dele e parecia que tudo era possível.
Mas no dia seguinte, ficou claro que Vladimir Putin se manteria no poder e Navalny teve de twittar sob custódia da polícia. Ele foi preso depois de uma manifestação da oposição. O ativismo da mídia social pode ser uma força duradoura na política russa, mas hoje ainda não faz frente ao poder offline.
Evgeny Morozov, autor de The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom (sem edição brasileira), não descarta inteiramente a internet como um instrumento de organização política, mas ele é cético quanto aos motivos e o poder do ativismo digital.
“Meu pressentimento é que as pessoas muitas vezes se afiliam a causas online por uma questão de egocentrismo e narcisismo”, disse. “Às vezes é apenas para tentar impressionar o amigos online, e uma vez criada essa identidade, não há muita razão para realmente fazer algo mais.”
Isto nos leva à campanha online que denunciou o fato de Bully, um filme sobre a violência entre crianças, ter recebido a classificação “R” (menores de 17 anos podem assistir ao filme, se acompanhados dos pais ou responsáveis) da Motion Picture Association of America.
Assisti ao trailer do filme e me encontrei depois com o diretor Lee Hirsch. Como pai de um adolescente de 15 anos, a questão me interessava.
Correram rumores de que David Boies e Ted Olson, advogados que estiveram frente a frente no processo Bush versus Gore, na Suprema Corte, aderiram aos esforços para convencer a associação a mudar a classificação para PG-13 (inapropriado para menores de 13 anos), para que os jovens mais atingidos pudessem assistir ao filme. Celebridades e políticos, de Drew Bress a Justin Bieber, aderiram à campanha, e mais de 460 mil pessoas assinaram um abaixo-assinado online exigindo a mudança.
A campanha foi iniciada por uma adolescente, Katy Butler, que era vítima de bullying por ser lésbica, e explodiu no Twitter e outros sites sociais.
“Estamos completamente decepcionados com a classificação”, disse-me Lee Hirsch. “Este filme tem sido anunciado e acolhido por todos os tipos de grupos educacionais, e muitas escolas pretendem levar o maior número de alunos para ver o filme.”
Lee Hirsch disse que a petição surgiu do nada. “Recebi um e-mail um dia depois de o filme ser lançado e desde então só vi o movimento crescer”, disse.
Geralmente as pessoas apoiam um filme pagando pela entrada do cinema. Se Bully fosse visto somente pelas pessoas que assinaram a petição, a arrecadação nos EUA seria de US$ 5 milhões. Food Inc., Inside Job e Enron: Os Mais Espertos da Sala são documentários que tiveram um grande impacto e nunca chegaram à marca dos US$ 5 milhões.
Há uma outra coisa que faz pensar. O filme é distribuído pela empresa do produtor Harvey Weinstein – que posso dizer sem ironia que é um dos mais talentosos provocadores em qualquer negócio. E o que parece ser o florescimento das redes de ação política online obviamente implica valor comercial para a Weinstein Company. Não seria a primeira vez que um distribuidor adora uma controvérsia que chame atenção para o filme.
Telefonei para Christopher J. Dodd, ex-senador que hoje dirige a Motion Picture Association of America e foi alvo de uma revolta recente na internet depois de a sua organização corroborar uma nova lei antipirataria bastante impopular. Eu esperava que ele fosse dizer que os manifestantes online não entendem os detalhes e a importância do sistema de classificação. Não foi bem isso.
“Eles são nossos clientes e temos que ouvi-los”, afirmou. “Fizemos uma exibição do filme em Washington e, entre outras pessoas ali, estava Katy Butler, que deu início à petição, e que se manifestou a respeito da questão. Eu recomendei a ela para fazer o que fez.”
“Este é o mundo em que iremos viver e precisamos participar dessas discussões em vez de ficar torcendo as mãos, apreensivos”, disse.
Christopher Dodd disse que ele e Weinstein tiveram uma conversa honesta e que ele acredita que uma espécie de compromisso será alcançado para que os jovens possam ver o filme se quiserem, sem precisar dar a mão ou pedir permissão para os pais.
Este resultado – uma organização muito tradicional respondendo com a mente aberta a um protesto formulado online – me fez refletir novamente na minha própria descrença com o ativismo via web. Muitas das pessoas que adotaram a impopular decisão no caso da Komen for the Cure desapareceram e a política foi reformulada. A morte de Trayvon Martin está sendo investigada e o presidente entrou diretamente no caso. E quem sabe, talvez a luz sobre Joseph Kony possibilitada pela web, acabe levando-o à Justiça.
As hashtags vão e vêm, e os chamados elos frágeis dos movimentos digitais não são páreo para os engajamentos no mundo real. Mas é melhor do que nada, e eles provavelmente tornarão o mundo, aquele além do nosso teclado, um lugar melhor.
Fonte: Link / New York Times