
O futebol brasileiro sempre foi marcado por grandes desigualdades que vão muito além dos direitos de transmissão e das cifras de patrocínio bilionárias. Nos últimos anos, esse fenômeno do “Pay to Win” tem monopolizado as disputas e inflacionando o mercado. No entanto, essa não é a maior desigualdade existente no nosso futebol. Enquanto os clubes da elite discutem o excesso de jogos e competições simultâneas, a vasta maioria dos clubes profissionais enfrenta o problema oposto: O “Limbo” do calendário esportivo.
Para centenas de clubes do nosso futebol, o ano começa e termina em um espaço de 45 dias. Com o fim das fases classificatórias dos campeonatos estaduais, as equipes que não possuem vaga nas séries A, B, C ou D do Campeonato Brasileiro entram em um hiato forçado de atividades, gerando um ciclo vicioso de instabilidade e descontinuidade.
Sem jogos, não há receita. Consequentemente, esses clubes oferecem contratos temporários de três ou quatro meses aos seus jogadores, fazendo com que este busque outras ocupações para complementar sua renda.
Esse limbo esportivo não afeta apenas quem está em campo. Nas cidades do interior, o futebol é um motor econômico e social. Quando o time para, o comércio no entorno do estádio esfria, os sócios-torcedores cancelam suas mensalidades e a identidade da nova geração de torcedores desses clubes enfraquece, pois o time da sua terra “não existe” durante 8 meses no ano.
Para solucionar esse problema, os debates precisam evoluir em dois sentidos: Aumento de competições oficiais regionalizadas, para que essas equipes possam disputar mais, sem gastar tanto com deslocamento. E uma (ou duas) novas séries de divisão nacional, assim como funciona em outros países como Alemanha, Inglaterra e Itália que possuem de 6 a 8 divisões nacionais.
No fim das contas, quem mais sofre com o silêncio dos estádios durante o limbo do calendário é o torcedor local, que vê o seu amor pelo clube ser tratado como um hobby sazonal. Apagando o hábito de ir para o campo, a conversa de padaria e o sonho do jovem da região. Enquanto o calendário for um privilégio de poucos, o futebol brasileiro continuará sendo uma pirâmide sem base, onde a paixão sobrevive, heroicamente, apesar do sistema.
Por Guilherme Mereu, técnico do futebol feminino do Yuracan