Por Michelle Reboita
Antes de responder a pergunta do título dessa matéria, é necessário apresentar ao leitor um breve contexto histórico. No final da década de 1970, as grandes empresas petrolíferas, como a Exxon, já sabiam do impacto dos combustíveis fósseis no clima, pois elas mesmas financiaram pesquisas. Como a divulgação dessas pesquisas poderiam arruinar economicamente tais empresas, elas passaram a mascarar as informações e se utilizaram muitas vezes dos meios de comunicação em massa como propagandas enganosas na televisão. Para uma contextualização histórica, eu recomendo aos leitores o documentário “A Campanha contra o Clima”.
Diante das inúmeras pesquisas sobre mudanças climáticas e da necessidade de expor os resultados de forma organizada para a sociedade e para os tomadores de decisão, em 1988 foi criado o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (ONU Meio Ambiente) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). O IPCC é composto por cientistas de diversos países que trabalham de forma voluntária. Esses pesquisadores estão organizados em três grandes grupos: o Grupo de Trabalho I, que é responsável pela organização do conhecimento sobre a base física e científica da mudança do clima e no qual minhas pesquisas estão inseridas; o Grupo de Trabalho II, que é responsável pela análise do impacto da mudança do clima, adaptação e vulnerabilidade, e o Grupo de Trabalho III, que analisa a mitigação das mudanças climáticas. Qual a real diferença entre os grupos II e III? O grupo II indentifica os impactos que a vida no planeta está tendo devido às mudanças no clima, em outras palavras, os perigos a nossa vida, e apresenta medidas para tentarmos viver com essas mudanças no clima. Um exemplo simples é: para ficarmos confortáveis em ambientes que estão mais quentes usamos ar condicionado. O ar condicionado é uma medida de adaptação. Já o grupo III se dedica a mitigar os efeitos das mudanças climáticas, isto é, propor estratégias para reduzir o aquecimento global. Portanto, podemos pensar como a eliminação de uma doença e não um paliativo para mascarar/reduzir seus efeitos. Através dos três grupos, o IPCC tem a missão de reunir resultados de pesquisas e torná-las de fácil compreensão e acessível a todos.
Em 09 de agosto de 2021, o Grupo de Trabalho I publicou o seu sexto relatório. Recentemente, no dia 28 de fevereiro, foi a vez do Grupo de Trabalho II. O relatório do Grupo de Trabalho I destacou como sendo a principal causa do aquecimento global, as emissões de gases de efeito estufa pelas atividades humanas. Já o relatório do Grupo de Trabalho II alerta que os impactos das mudanças climáticas estão sendo “muito mais rápidos” do que o previsto e isso causa perturbações perigosas na natureza. De fato, eventos extremos como de seca ou chuvas intensas têm sido registrados com maior frequência e/ou intensidade não só no Brasil como no mundo. A região sul do país vem passando por um período de seca prolongado. Recentemente, foram registrados os episódios de chuva intensa na Bahia, norte de Minas Gerais e, ainda mais recente, o evento de chuva extrema na cidade de Petrópolis.
Quando fala-se de clima e suas consequências à vida, há quatro palavras que são muito utilizadas, inclusive já mencionei duas delas nos parágrafos precedentes, as palavras são: adaptação, mitigação, vulnerabilidade e resiliência. A definição delas foi obtida do glossário do Grupo de Trabalho II do relatório AR5 (https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/02/WGIIAR5-AnnexII_FINAL.pdf). Adaptação é o processo de se ajustar aos efeitos do clima atual e futuro. Aqui, recordo o exemplo do ar condicionado. Mitigação das mudanças climáticas significa a intervenção humana em reduzir as fontes ou aumentar os sumidouros de gases de efeito estufa. Veja que aqui o objetivo é a redução das emissões e não uma adaptação às consequências dessas emissões. Quanto mais se mitiga menor é a necessidade de adaptação. Vulnerabilidade é a propensão a sofrer um efeito danoso. Por exemplo, regiões com moradias em encostas íngremes estão propensas a desabarem em casos de chuvas muito fortes. Isso é a vulnerabilidade de um local. Em Itajubá, nossa vulnerabilidade está em relação ao nível do rio Sapucaí. Em situação de muita chuva o rio extravasa. A vulnerabilidade pode ser ambiental ou social e é diferente de local para local. Por exemplo, uma seca extrema em um local pode matar muito, enquanto em outro, mais desenvolvido, isso pode não ter muito efeito danoso. Logo, a vulnerabilidade está associada com as condições de vida da população. Por fim, resiliência é a capacidade de um sistema, seja ambiental econômico ou social, de lidar com os eventos danosos. É aquele que consegue se adaptar aos efeitos adversos, aprende e propõe transformações e soluções.
Focando nos resultados do Grupo de Trabalho II (https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg2/), as mudanças climáticas causam problemas à agricultura, pesca e outras atividades, pois acabam matando/alterando muitas espécies. A vida humana também é afetada diretamente, há estresse térmico, problemas com secas, inundações etc. Na América do Sul, o evento mais causador de mortes são as inundações. A igualdade e justiça climática é outro ponto abordado no relatório. Isso trata da transferência de tecnologias entre os países a fim de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, por exemplo.
Deixo também como recomendação a live que ocorreu no dia 07 de março, disponível no canal do YOUTUBE GENAT UFPB (https://www.youtube.com/watch?v=MWhw19lRJIg): Novo relatório do IPCC sobre as mudanças climáticas: impactos, adaptação e vulnerabilidade.
Devemos lembrar que aumento da temperatura média global acima de 1,5oC poderá causar impactos irreversíveis como, por exemplo, derretimento das grandes geleiras.
Em suma, esses relatórios deixam claro que se a humanidade não mudar seus hábitos irá sofrer drasticamente com as mudanças no clima. Seria possível escrever milhares de páginas sobre o assunto, mas aqui o objetivo não é esse. Aqueles leitores que tiverem interesse em saber mais sobre o tema Mudanças Climáticas podem acessar os vídeos e podcasts sobre o assunto em https://meteorologia.unifei.edu.br/gpepsa/?pag=blog