
O futebol brasileiro sempre foi alimentado pela mística do “terrão”. Dos craques que surgiam na várzea antes de brilhar nos gramados europeus. Das histórias como a de Mané Garrincha, Romário, Adriano e muitos outros. No entanto, a pergunta que se faz presente nos dias de hoje é: onde estão os craques que costumavam brotar em cada esquina no Brasil?.
A explicação dessa indagação passa por fatores geográficos, comerciais e culturais. Se pararmos para observar, onde antes havia um campo de terra batida ou um terreno baldio que era palco dos pequenos campeonatos de final de semana, hoje erguem-se prédios, estacionamentos e centros comerciais. O espaço público outrora destinado ao lazer foi cercado e monetizado. A “pelada” de rua, que ensinava o drible curto, a malandragem e as regras adaptadas ao terreno, foi substituída pelas quadras de grama sintética, que cobram aluguel por hora, impondo uma barreira financeira ao talento bruto da periferia.
O processo de mecanização da modalidade também alterou a formação do atleta. Hoje, o craque do bairro é capturado por escolinhas de futebol cada vez mais cedo. Se por um lado isso traz disciplina tática, por outro, castra sua criatividade. A cultura do “resultadismo” presente nas escolinhas, obriga o menino a “passar e recompor” e “trabalhar com apenas dois toques”. Isso cria uma geração de jogadores taticamente obedientes, porém tecnicamente genéricos e sem improviso.
Logo, para podermos reencontrar os talentos dos nossos bairros é preciso entender o futebol como um fenômeno social. Um patrimônio imaterial que não pode ser “catequisado” por padrões europeus ou financeiros.
O craque do bairro ainda existe, ele apenas está escondido atrás das grades dos condomínios ou carente de espaços públicos destinados ao lazer dos seus finais de semana.
Por Guilherme Mereu/Coluna do Mereu