
Uma das coisas que ainda me faz pensar e que me incomoda – quando vejo alguém com a T21 isolado, sem amigos, passando os dias em casa ou restrito apenas à convivência com os pais — é: como será com o Rafa quando ele entrar na fase adulta? Sabemos que o futuro a Deus pertence, porém é impossível de não nos preocuparmos com essa questão.
Quando seus colegas estiverem escolhendo universidades, faculdades, caminhos profissionais… quando, teoricamente, chega o momento em que os filhos típicos começam a caminhar sozinhos, construindo carreiras, formando suas famílias. Será que seus “colegas” — com quem o Rafa estuda desde os cinco anos de idade — vão se lembrar dele? Continuarão sendo seus amigos? Será que ele será aceito nesse novo ambiente? E seus novos colegas, como será essa convivência?
Confesso: tenho medo desse futuro. Talvez alguns me chamem de pessimista ou digam que eu deveria pensar apenas no hoje. Mas como ignorar essa inquietação, sabendo que, em muitos casos — ou talvez na maioria deles — a solidão vivida pelas pessoas com T21 não é consequência da deficiência em si, mas da falta de inclusão, de oportunidades, de amor e, principalmente, da indiferença que ainda existe em relação às pessoas com deficiência?
O que vemos, infelizmente, é uma solidão construída socialmente. Uma solidão gerada pela discriminação e pelo capacitismo, que ainda insistem em limitar sonhos, trajetórias, oportunidades e possibilidades.
Diante disso, alguém pode perguntar: o que fazer, então, se ainda temos tanto a caminhar quando o assunto é inclusão de fato?
Desde cedo, nossa família fez uma escolha: ACREDITAR. Acreditar no Rafa. Acreditar, todos os dias, que ele é capaz, que ele pode, e deve, viver com autonomia, independência e dignidade. Buscamos apoio de profissionais da educação e da saúde, porque entendemos que o desenvolvimento acontece quando há estímulo, acompanhamento e oportunidades reais. Mas, acima de tudo, quando há AMOR – “O amor é paciente, o amor é bondoso…Tudo sofre, tudo crê, tudo espera tudo suporta” 1 Cor 13,4-7
Mas será que vale todo esse esforço como pais? Vale dedicar tempo, energia e coração para tentar tornar a vida de um filho com T21 o mais “comum” possível?
Todos os dias, o Rafa nos responde. Ele nos ensina sobre afeto, singularidade e o acreditar. Acompanhar seu desenvolvimento e ver sua evolução até aqui nos enche de alegria, orgulho e, principalmente, esperança. Esperança de que, no futuro, o olhar para às pessoas com deficiência seja pautado em potencialidades — e não em desconfiança, pena ou indiferença. Hoje, o Rafa pode ser considerado alfabetizado e graças a Deus consegue se socializar e comunicar bem. Ele está no caminho. Um caminho que está sendo construído com dedicação, fé, paciência, amor e a convicção de que a T21 não define o futuro de ninguém.
Ainda assim, sabemos que a caminhada é longa. A discriminação e o capacitismo continuam fechando portas, reduzindo oportunidades e reforçando rótulos injustos. Ainda há quem acredite que pessoas com T21 não são capazes de viver de forma autônoma, independente e socialmente ativa. Esses paradigmas precisam ser quebrados. Pessoas com T21 têm capacidade, têm sonhos, têm sentimentos e uma enorme habilidade de criar vínculos. O que muitas vezes lhes falta não é capacidade, mas oportunidade, acolhimento e convivência verdadeira.
Promover inclusão vai muito além de permitir a presença. Inclusão é garantir participação e pertencimento. É criar espaços onde a amizade floresça, onde o respeito seja real e onde a diferença seja reconhecida como valor. Quando isso acontece, a solidão perde espaço e dá lugar a uma convivência saudável e respeitosa.
O tema do Dia Internacional da T21 deste ano, nos convida a refletir: Quantas oportunidades ainda são negadas por preconceito ou falta de conhecimento? Quantas amizades deixam de nascer por indiferença e pelo capacitismo?
Dizer “Xô Solidão” é assumir um compromisso social e coletivo com o verdadeiro significado da inclusão. É escolher o amor que acolhe, o respeito que reconhece e a esperança que transforma vidas. Quando conhecemos e valorizamos as reais potencialidades das pessoas com T21, damos um grande passo em direção a uma sociedade mais justa, mais humana e, sobretudo, mais fraterna.
Por Eduardo Sato, pai do Rafa, coordenador do Projeto Futsal Down T21 Arena Park