Por várias vezes, me peguei refletindo sobre qual seria a melhor maneira de lidar com a condição genética do meu filho, Rafa — ele tem T21, mais conhecida como síndrome de Down — em uma sociedade ainda marcada pelo capacitismo.
São muitos os medos e receios. Vivemos em um mundo onde o individualismo e o egoísmo se sobressaem, onde “ser diferente” muitas vezes é sinônimo de “ser anormal”. Um mundo onde, infelizmente, sonhos são ignorados, oportunidades negadas e até mesmo o direito de existir dignamente pode ser colocado em dúvida.
Mas, com o tempo e com o próprio Rafa, venho aprendendo algo essencial: para pessoas com T21, o mais importante é serem felizes. Eles podem — e devem — ser o que quiserem. O que os outros pensam ou dizem não pode ser maior do que a alegria de viver e de se expressar. O que importa é nós, pais, acreditarmos em nossos filhos, enxergando além de qualquer diagnóstico, apoiando suas capacidades, respeitando seus ritmos e oferecendo, sempre, muito amor, paciência e carinho.
Recentemente, vivenciamos uma situação que nos marcou e que gostaríamos de compartilhar.
O Rafa ainda não sabe tocar violão, mas seu gosto pela música é enorme. Tempos em tempos, ele abraça um violão antigo que era da Cris e começa a cantar com entusiasmo. Para ele, aquilo já é suficiente — e com seu “conhecimento” e amor por música, acredita de verdade que é cantor.
Um dia, sem nos contar nada, começou a ensaiar uma música para uma apresentação na escola. Gravou um vídeo e pediu para que fosse enviado ao professor. Ele queria mostrar que tinha ensaiado e que estava pronto para se apresentar. Quando descobrimos, orientamos ele a não levar o violão: além de velho e desafinado, ele ainda não sabia de fato tocar. Nossa intenção era “protegê-lo”, evitar que fosse motivo de chacotas e brincadeiras ou tratado com pena pelos colegas.
Mas a resposta do Rafa nos surpreendeu: “Pai, eu vou levar e tocar. Não tem problema se meus colegas zoarem. Se eles falarem alguma coisa, eu não ligo.”
E ele foi. Levou o violão. Se apresentou. Tocou. E voltou para casa “passando mal” de tanta felicidade. Tinha vivido aquele momento com alegria. Estava radiante por ter participado da apresentação, por ter feito o que tanto queria.
Essa experiência me trouxe uma outra lição: devemos orientar nossos filhos com a T21, sim. Mas mais do que isso, devemos respeitar suas vontades. O que para nós poderia parecer um risco, para ele era uma oportunidade de realização. O Rafa nos mostrou que o mais importante não é a técnica, a perfeição ou a aceitação externa — mas a coragem de viver seus sonhos suas vontades, mesmo quando o mundo não os entende.
A inclusão real começa quando ouvimos, respeitamos e acreditamos. Quando deixamos nossos filhos com T21 — e qualquer pessoa com deficiência — serem protagonistas da própria história. Não se trata de romantizar a condição, mas de reconhecer o valor humano que vai muito além dos limites que a sociedade insiste em impor.
Rafa tocou — e o que ele tocou não foi apenas um violão: ele tocou nossos corações com sua coragem, sua alegria e sua determinação.
Eduardo Hideo Sato – Pai do Rafael Gomes Sato de 13 anos e que tem a T21 e idealizador e coordenador da 1ª equipe de Futsal Down do Sul de Minas, o @t21arenapark.